we’ve been sheltering-in-place

Como o resto do mundo, estamos sob ordens de “shelter-in-place” desde 12 de março. Eu e o Uriel ficamos quase 3 meses juntos em casa e foi muito bom, apesar das circunstâncias. Nesse tempo cozinhei muito, algumas receitas novas e diferentes, outras repetecos de sempre. Agora ele voltou pro trabalho na Bay Area e eu continuo indefinidamente trabalhando de casa. Ficamos concentrados nas nossas coisas, na nossa casa, no trabalho, almoçando e jantando juntos, plantamos até uma horta. Quero colocar algumas das receitas aqui. Tudo ficou parado, por uma razão muito compreensível, mas não parei minha fábrica de comidas. Muito pelo contrário, acho até que ampliei, adicionando algumas habilidades extras no meu currículo. Finalmente conseguir fazer meu próprio levain e fazer pão de fermentação natural, e queijos veganos e fermentados e germinados. Muita coisa gostosa, pra alimentar nosso corpo e ajudar a acalmar nosso espírito, nesses tempo tão estranhos.

o jantar com peru [que não comi]

Fiquei doente uns dias antes do Thanksgiving. Nem sei o que tive. Uma febre baixa, um frio, um cansaço. Fiz as sobremesas na noite anterior e no dia do Thanksgiving trabalhei cuidadosamente na cozinha para não me exaurir e fiz metade das coisas no dobro do tempo. Pela primeira vez em muitos anos não servi nenhum queijo de appetizer. Cozinhei muitas coisas, tudo sem nenhum produto laticínio. Foi uma maratona da qual me considerei vitoriosa! Enquanto isso o meu filho preparou um peru forrado com bacon. A casa cheirou a temperos e coisas assando o dia todo. O peru deve ter ficado muito bom, mas eu não comi. E ele levou todos os restos embora. Comemos as sobras dos pratos com legumes no dia seguinte e depois eu transformei isso naquilo e encerrei a jornada desse primeiro Thanksgiving dos novos tempos.

cepallas ou crispelas
[da tia Miquelina]

Uma das tradições de Natal na minha família sempre foi fazer e comer as cepallas. Minha mãe faz essa receita, da Miquelina, sua tia-avó. As cepallas [ou crispelas] são flores fritas, feitas de massinha aromatizada com anisette, depois polvilhadas com açúcar de confeiteiro e servidas regadas de mel. Esse doce tem gosto de infância pra mim e essa foi a primeira vez que fiz a receita herdada e guardada com todo cuidado pela minha mãe. Percebi que outras famílias italianas de diferentes regiões têm doces similares, com outros nomes. Não achei nada com nome similar nas receitas de doces natalinos da Basilicata, então pode ser que esses nomes tenham sido abrasileirados. Essa receita rende bastante cepallas. Elas crescem durante a fritura.

1/2 quilo de farinha de trigo
1 colher de sopa de manteiga sem sal amolecida
5 ovos caipiras
2 cálices de anisette [ou outra bebida de anis]
1 colher de chá de fermento em pó
1 pitada de sal

Misturar todos os ingredientes e amassar bem, como se estivesse fazendo massa de macarrão. Cortar a massa em pedaços e passar na máquina de macarrão até o número 5 apenas. Cortar asa tiras com um cortador de massa [usei um pra fazer risoles] e dobrar em circulo, apertando a massa para formar as pétalas das flores. Frite em óleo bem quente, escorra para um prato forrado com papel. Salpique com açúcar de confeiteiro e guarde em caixas ou latas com tampa. Sirva com mel.

dei um pulo [no hemisfério sul]

Saímos de uma onda de calor fenomenal e embarcamos rumo ao inverno no hemisfério sul para ver toda a família e participar do casamento da nossa sobrinha. Foi uma viagem rápida e a agenda ficou lotada, com muitos eventos com as duas famílias e alguns reencontros de amigos. Não fiz muito, além de comer e conversar. Minha mãe achou muitos desenhos e rascunhos de pinturas do meu pai e eu trouxe alguns comigo. Me apego à coisas que me lembram da presença dele. Ele tinha muitas câmeras fotográficas e de filmagem, equipamento de imagem, muitas fotos, slides, filmes, CDS, K7s, livros, discos, um mundo de coisas, tudo muito bem organizadas. Trouxe comigo uma das maletas de fotógrafo dele, com câmera, lentes, flash, geringonça de fazer fotos com timer. Tudo muito bem arranjado dentro da maletinha de couro. Revi minha amiga de infância, que não via há 20 anos. Revi outra amiga de longa data. E o resto foi só família e comilança. Me esbaldei e comi tudo o que vi pela frente. Ganhei três quilos, mas valeu a pena! Comi maracujá, atemoia, muita banana, goiaba, carambolas docinhas, uva Niágara [fora de época, mas mesmo assim boa!], bala de coco, bananinha, beliscão, biscoito de polvilho, sequilhos, pipoca doce, bolo de fubá, pamonha, bolinho de bacalhau, mandioca frita, coxinha feita em casa, pudim, manjar, picanha, bacalhau, tutu de feijão, pão de queijo, palmito, empadinha, esfirra, nhoque de mandioca, macarronada e feijoada! Cheguei cansada e detonada por uma gripe. De volta para o verão tórrido, pros pêssegos e tomates, vamos retomar de onde parei.

thanksgiving dinner

Esse foi um thanksgiving onde eu tive muito o que agradecer. Um agradecimento ultra especial pela saúde de todos na minha família. Não foi um jantar super planejado, porque ando muito atolada de trabalho. Felizmente abri a edição da revista Bon Appétit no iPad a tempo e foi lá que encontrei todas as receitas que fiz para esse jantar. Fui ao supermercado antes de escolher as receitas e acabei tendo que voltar mais uma vez. O supermercado onde sou freguesa fecha no dia de Thanksgiving [coisa rara por aqui], então tive que pensar em todas as possibilidades com antecedência. No final tudo deu certo, fiz a sobremesa e um chutney de cranberries na quarta à noite e o resto na quinta. Troquei o peru pelo frango caipira, porque fomos apenas três comensais no jantar. Três humanos, dois gatos e uma cachorra. Comemos muito, estava tudo delicioso, as receitas virão em seguida.

frango da Tia Neci

frango-neci

Eu e minha mãe conversamos sobre comida. Ela tem um arquivo imenso de receitas de família, que já foram refeitas inúmeras vezes durante o passar dos anos. Algumas das autoras das receitas já nem estão mais entre nós, mas o legado que elas deixaram continua bem vivo. A tia Neci era casada com irmão da minha avó, o tio da minha mãe. Ela era uma fofura de pessoa e cozinhava muito bem. Era também bastante frugal. A receita pede para lavar o frango com água e vinagre para tirar “a catinga”. Não consegui interpretar isso muito bem, se ela cozinhava com algum tipo de frango caipira ou se o frango vendido na época não era cem por cento fresco. Eliminei essa parte de lavar o frango na receita, mas mantive o vinagre. Então a receita é bem simples. Use sobrecoxas desossadas, tempere com sal, pimenta do reino moída na hora, um pouco de vinagre de vinho tinto, cebola ralada e bastante cheiro verde picadinho. Deixe marinar por algumas horas ou de um dia para o outro, na geladeira. Pré-aqueça o forno em 365ºF/185ºC. Forre uma assadeira com papel vegetal ou alumínio. Passe os pedaços de frango na farinha de rosca [*eu usei Panko] dos dois lados e coloque sobre a assadeira. Leve ao forno e asse, virando os pedaços na metade do tempo, até eles ficarem dourado dos dois lados. Minha mãe serviu esse frango com batata assada, eu servi com batata doce assada. Apenas tempere os cubinhos de batata com sal, flocos de pimenta vermelha e azeite. Coloque no forno junto com o frango, numa assadeira separada.