a dona da receita


Essas fotos são do inicio da década de 90, provavelmente 1993. Nessas fotos minha mãe tinha 60 anos, a idade que eu tenho hoje. Na época eu morava no Canadá e ela queria me mostrar o restaurante natural na praia, onde eles tinham almoçado. O efeito que essa foto dela sentada na frente do prato com arroz integral fez em mim, não tenho como explicar. Tive essa foto fixada na geladeira da minha cozinha canadense por muitos anos. Lembrei disso porque minha mãe sempre foi uma inspiração pra mim. Ela morreu no dia 30 de maio com 89 anos.

Estávamos sentadas na cozinha da casa dela numa tarde calorenta de outono em Campinas, tomando um lanchinho e ela me disse que tinha tido um sonho enquanto descansava—os períodos em que ela dormia durante o dia devido à fadiga da doença. Ela contou que no sonho ela estava andando numa praia e a areia era cheia de pedrinhas que machucavam o seus pés. Ela queria alcançar o meu irmão, que estava mais à frente com outra pessoa que ela não reconheceu, mas as pedrinhas a impediam de chegar até eles.

Menos de dois meses depois de eu ter voltado das férias que passei com ela, as pedrinhas já não a incomodam mais. Espero que ela tenha chegado no Carlos Augusto e que a outra pessoa seja o Carlos Eduardo, meu pai. E que essa metade da nossa família esteja agora junta.

Minha mãe foi um fenômeno. Viveu uma vida intensa, do jeito que ela queria, fez tudo o que quis, nunca desistiu, nunca disse não consigo. Enterrou a mãe, o pai, os cinco irmãos, muitos amigos e familiares, o marido e o filho. Ela disse uma vez pra minha irmã—um dia meu corpo vai dizer, chega Odette! E esse dia chegou. Ela estava doente há mais de três anos, já era paciente paliativa. Estava frágil como um cristal, mas continuava, dentro do possível, com a vida normal dela. Fazia 3 tipos de aula de ginástica, tinha encontros do grupo de estudos de logosofia, para o qual ela estudava e traduzia textos. E fazia toda a administração da casa, resolvia os quiprocós burocráticos, deixou tudo ajeitado pra que ninguém ficasse estressado.

No dia da morte dela, ela foi dirigindo ao mercado pela manhã, almoçou, à tarde foi ao oculista, voltou pra casa, colocou a chave do carro no ganchinho da cozinha, disse “Cheguei Osmarina” e caiu. Achamos que ela morreu quase instantaneamente. Como toda morte deveria ser, sem sofrimento, sem hospital, sem tubos, sem perder a independência. Foi uma morte meio de surpresa, mesmo já sendo algo esperado. Minha mãe não quis causar alvoroço. Deixou apenas esse vazio que nunca mais vai ser preenchido. 🤍

6 comentários em “a dona da receita”

  1. Oi Fer! É lindo ver o quanto mulheres como a dna Odette nos inspiram… Como é bom ter essas referências na vida da gente! E apesar da saudade não ser algo fácil, o orgulho de tê-la tido na sua vida ajuda bastante a viver o luto. Um abraço bem apertadinho com muito carinho
    Monica

    R: muito obrigada Monica! um beijo! ❤️

  2. Fernanda, acompanho a página há tanto tempo que não tenho qualquer constrangimento em dizer que lamento muito sua perda. Que as memórias queridas e alegres que te acalentem e te guiem. Beijo carinhoso e fraterno

    R: muitíssimo obrigada Karina. um beijo!❤️

  3. Fernanda, que lindo texto e homenagem, me emocionei muito.
    Uma dádiva ter uma mãe assim…reconheci a minha nas tuas linhas.
    Um forte abraço e que as lindas lembranças sejam o apoio de vocês.

    R: muito obrigada Clarissa. ❤️

  4. Oi, Fer, sinto muito por essa perda. Quando li o título “a dona da receita” pensei imediatamente na sua mãe. Sigo seu blog há mais de dez anos, teve uma época em que todo ano eu fazia uma retrospectiva e lia tudo, de cabo a rabo, achando maravilhosas as fotos, o seu estilo, sua escrita, aproveitando o privilégio de receber o que você compartilhava por aqui.

    Que existência maravilhosa a da dona Odette. Invejável. Espero chegar lá assim também.

    Um beijo, fique bem.
    Nicole

    R: muito obrigada Nicole! um beijo! ❤️

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