muitos poucos livros

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2011 deve ter sido o ano em que eu menos comprei livros. Primeiro foi por causa do choque da mudança, com o empacotamento de uma casa inteira, dez anos de acúmulo, e perceber que eu tinha cacareco pra caramba! Muitas doações e reciclagens depois, ainda continuei com muito cacareco. Dei um fim em anos de coleção de revistas, doei muitos livros, fiz o possível e mesmo assim precisamos de dois caminhões gigantes pra carregar tudo de uma casa para a outra. Embora tudo isso não tenha sido exclusiva culpa dos livros, confesso que dei uma brecada de leve. Sem falar que fiquei entretida com outras mil coisas—além da arrumação, as pequenas reformas, troca de piso, instalação de fogão, descobrimento e desbravamento da cidade, eteceterá, eteceterá. Não adquiri tantos livros também porque me peguei meio que no flagra folheando alguns deles sem o menor entusiasmo. É muito livro, muitos lindos, inspiradores, divertidos, mas nem todos realmente úteis. Tomei uma canseira das revistas também, principalmente quando percebi que não estava dando conta de manter o ritmo de leitura das publicações que chegavam mês após mês, não me dando oportunidade nem de tomar um fôlego. Cancelei várias assinaturas e algumas eu troquei pela versão eletrônica, pra ler no iPad. Essa troca funcionou muito bem pra mim e espero poder eventualmente fazer isso com todas as revistas que assino. Quanto aos livros, vou indo no passinho do elefantinho. Quem sabe em 2012 meu ânimo de leitura retorne. Sempre lembrando que agora eu tenho um porão enorme e uma garagem que já virou depósito, o que significa espaço à beça pra poder encher de mais coisarada.

berinjela assada
[com molho de buttermilk]

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Essa receita é a foto da capa do lindíssimo livro PLENTY do chef Yotam Ottolenghi. E foi a primeira que fiz, porque era essa que tinha que ser feita. Fomos à Napa num sábado e pegamos o último dia do Farmers Market da cidade, que é sazonal como o de Woodland. Lá eu arrebatei um montão de berinjelas pequenas. A receita recomenda que elas sejam grandes, mas eu desobedeci. Fiz como prato principal e comemos até dizer chega e ainda sobrou pra marmitinha do nosso almoço.

para as berinjelas:
2 beringelas grandes
1/3 xícara de azeite de oliva
1 e 1/2 colheres de chá de folhas tomilho limão [ou tomilho comum]
Sal marinho e pimenta do reino moída na hora
Sementes de uma romã
1 colher de chá de za’atar
para o molho:
9 colheres de sopa de buttermilk
1/2 xícara de iogurte grego
1 e 1/2 colheres de sopa de azeite de oliva
1 dente de alho amassado [*omiti]
1 pitada de sal

Pré-aqueça o forno em 350°F/ 176ºC. Corte as berinjelas ao meio e com uma faca pequena e afiada faça cortes no meio da polpa da berinjela, primeiro paralelos, depois transversais, tomando cuidado para não perfurar a casca.

Coloque as metades das berinjelas numa assadeira forrada com papel vegetal, pincele cada uma com azeite [ou apenas regue uma por uma com um fio de azeite] e salpique com o sal, pimenta do reino e folhas de tomilho. Leve ao forno por uns 30-40 minutos, até que as berinjelas estejam bem molinhas e cozidas. Remova do forno e deixe esfriar completamente.
Enquanto as berinjelas assam, faça o molho misturando o buttermilk, o iogurte grego, o azeite, o alho [se quiser, eu não quis] e o sal. Na hora de servir, coloque o molho sobre as fatias de berinjela assadas, salpique com o za’atar e as sementes, enfeite com folhinhas de tomilho fresco e regue com mais um fio de azeite, se quiser. Sirva.

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NOMA

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NOMA, que significa Nordic Food, é um restaurante dinamarquês que surpreendeu o mundinho gastronômico no ano passado quando desbancou o molecular e trend setter espanhol El Bulli do primeiro lugar na lista dos melhores do mundo. Já este ano o NOMA não causou nenhum choque ou espanto, apenas manteve-se firme no primeiro lugar.
Na cozinha do NOMA, o chefe René Redzepi usa apenas ingredientes locais, da região nórdica, o que transforma todos os pratos servidos no restaurante numa experiência única. O melhor restaurante do mundo tem também o livro mais lindo do mundo, publicado pela editora Phaidon. O livro traz um diário do chefe e uma lista com todas as regiões, os fornecedores locais e os ingredientes incríveis, muitos deles selvagem. Ele também disponibiliza muitas receitas, que na minha opinião infelizmente são infazíveis numa cozinha simples e amadora como a minha, ainda mais estando localizada no outro lado do planeta sem acesso aos mesmos ingredientes que o chefe usa. Mas folhear o livro bem devagar e admirar as lindas fotos já é um imenso prazer.
A Phaidon disponíbiliza um vídeo com Redzepi, onde ele descreve e demonstra como é a cozinha do NOMA. O que esse chefe faz nesse restaurante é praticamente um antídoto contra essa cafonice de se ficar gastando um dinheirão pra usar ingredientes importados, todo mundo preparando e comendo as mesmas coisas—tudo super previsível, sem imaginação, além de completamente insustentável.

Leon

Leon
Leon Leon
Leon Leon
Leon
Leon Leon
Leon Leon
Leon
Leon Leon
Leon
Leon Leon
Leon

Assim que vi a Heidi Swanson comentando o livro do restaurante Leon em Londres, coloquei ele na minha wish list. Tive que aguardar um pouco, até o livro ficar disponível nos EUA. Mas valeu a espera. Quando peguei o livro nas mãos e comecei a folhear, tive uma surpresa atrás da outra. O livro é criativo e divertido, diferente do formato comum dos livros de culinária. Hoje o trend é publicar as receitas distribuídas pelas estações do ano [se bem que isso a Edna Lewis já tinha feito no seu The Taste of Country Cooking ainda na década de 70]. O livro do Leon tem uma organização não tão comum. Metade do livro descreve os ingredientes [ingleses] e como o restaurante usa cada um. A outra parte do livro tem receitas, todas publicadas sem uma organização especifica. O bacana do livro é a maneira com que eles variam na apresentação daqueles mesmos temas de sempre. Uma página se abre como se fosse um armário, outra tem envelopes com cartões informativos dentro, uma delas é descartável, e outra tem adesivos. O colorido e a miscelânea de imagens são hipnotizantes. E as receitas também são bem bacanas, mas ainda não fiz nenhuma. Eu tenho um sistema desordenado com meus livros—com alguns eu coloco receitas em prática rapidinho, já outros eu fico um tempão só folheando, lendo, curtindo. Exatamente o que estou fazendo com o do Leon.

as cozinhas de M.F.K. Fisher

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Quem conhece a grande escritora gastronômica M.F.K. Fisher vai entender o meu entusiasmo por este livro. Quem não conhece, precisa sair correndo [agora!] e ler pelo menos um texto dessa mulher. How to Cook a Wolf, An Alphabet for Gourmets, The Gastronomical Me, entre muitos outros livros da autora, são leitura imprescindível para quem gosta de culinária e gastronomia.

Já li muita coisa dela, mas corri pegar o livro da Joan ReardonM.F.K. Fisher among the Pots and Pans [Celebrating her Kitchens] na biblioteca e depois de algumas páginas lidas, comprei o volume, pra ter na minha biblioteca. Neste livro, a historiadora de culinária faz um apanhado de todas as cozinhas onde Mary Frances cozinhou em toda a sua vida etinerária, entre a Califórnia e Provence. O livro começa com as casas da infância, onde Mary Frances começou suas aventuras na cozinha. No decorrer dos anos, ela muda de cidades e de países inúmeras vezes e em muitas ocasiões se viu cozinhando num fogareiro com apenas uma panela.
Reardon descreve, não somente as cozinhas, mas também as comidas que Mary Frances cozinhava e comia. O livro é uma delícia de ler, especialmente se você já estiver por dentro dos detalhes da vida da escritora, e não precisar entender muito bem os outros acontecimentos, fora da cozinha.

As ilustrações das casas e cozinhas de Mary Frances, feitas em aquarela, decoram o livro com detalhes de delicadeza.

Queria transcrever muitas partes do livro aqui—das toalhas de mesa de linóleo quadriculado, as porcelanas decoradas com flores cor de rosas e a comida que despertou os sentidos de Mary Frances ainda criança, até o diário que ela manteve na sua última casa, onde recebia hóspedes e visitas e anotava tudo o que ela servia e o que cada um comia.

Ela nunca fez aulas de culinária, cozinhava de maneira absolutamente simples, colocando os ingredientes frescos e sazonais em primeiro plano. Sempre recusou ser rotulada com jornalista ou autora de livros de culinária. E nunca se considerou uma criadora ou seguidora de receitas, uma professora ou interprete das escolas francesas. Mary Frances era uma sensualista. Ela acreditava apenas no prazer imenso proporcionado pelo ato de comer e beber.

»tudo sobre M.F.K. Fisher que já rolou por aqui.

Piri Piri Starfish
[Sabores e Cozinha]

Piri Piri Starfish
Piri Piri Starfish
Piri Piri Starfish Piri Piri Starfish
Piri Piri Starfish Piri Piri Starfish
Piri Piri Starfish Piri Piri Starfish
Piri Piri Starfish Piri Piri Starfish
Piri Piri Starfish Piri Piri Starfish
Piri Piri Starfish
Piri Piri Starfish

Os livros da Tessa Kiros demoraram muito pra chegar por aqui. E quando chegaram desembestei a comprar todos. Apenas um deles ainda não tinha dado as caras quando fui passar o Natal com minha família em Londres. Coloquei então o Piri Piri Starfish: Portugal Found no topo da minha lista de livros para comprar por lá, porque believe me my friends, muita coisa que é popular na Inglaterra, não chega por essas terras americanas [com exceção do onipresente festivo revolucionário Jamiezinho Oliver].

Em Londres esse foi o único dos livros que eu queria comprar, que não consegui encontrar pelos poucos lugares por onde passei. Deixei pra dar uma geral depois das festividades, pois ainda teria alguns dias por lá.

Na noite de Natal minha mãe estava distribuindo e abrindo os presentes que a minha irmã, que estava em Portugal, tinha deixado lá na casa do meu irmão quando eu vejo o livro da Tessa Kiros saindo de um dos embrulhos. E não era apenas o livro da Tessa Kiros sobre Portugal, mas o livro da Tessa Kiros sobre Portugal traduzido para o português! Fiquei tão entusiasmada que minha mãe decidiu dar o livro pra mim, apesar do presente ter vindo pra ela. Minha irmã comprou depois um outro volume e levou pra minha mãe, quando todos voltaram pro Brasil.

Voltei pra Califórnia toda feliz e serelepe com o único livro da Tessa que não acho por aqui. E com a vantagem dele estar em português. Só não gostei muito da a tradução do título. Achava Piri Piri Starfish: Portugal Found uma coisa tão fofinha. Mas Sabores e Cozinha – ao Encontro de Portugal está bem, pois o que interessa mesmo é o conteúdo—as receitas, o texto, os ingredientes, as fotos.

Não tem um livro da Tessa que não seja lindo e esse é particularmente especial. Todo em tons azulados, como os maravilhosos azulejos que vemos por todos os cantos em Portugal. Ainda não fiz nenhuma receita dele, mas já marquei várias. Desde dezembro do ano passado que estou apenas folheando, folheando, olhando, olhando, totalmente inebriada com tanta boniteza.

um livro verde

um livro verde
um livro verde um livro verde
um livro verde
um livro verde um livro verde
um livro verde
um livro verde um livro verde
um livro verde
um livro verde um livro verde
um livro verde
um livro verde um livro verde

Me esforço muito para não me tornar uma pessoa bitolada—apesar de admitir que sou, em alguns aspectos. Gosto muito das novidades tecnológicas, mas não deixo de apreciar as tradições. Estou adorando ler no meu Kindle, mas tenho absoluta consciência de que esse leitor eletrônico e seus similares nunca substituirão totalmente os livros impressos. E a experiência de manusear um livro é única, especialmente se for um livro antigo. Eu não gosto do cheiro nem da textura do papel, que se não for de primeiríssima qualidade, me dá um treco de aflição. Vou confessar que às vezes tenho nojo de livros usados, porque a imagem daquelas pessoas que lambem o dedo antes de virar uma página durante a leitura, sempre me assombra. E realmente não sei, nem nunca vou saber de onde veio aquele volume. De um lugar moforento, cheio de pulgas, traças e cocô de ratos? Bom, cada louco com suas manias e delirios, né? Mas mesmo assim nunca deixei de comprar livros usados ou de manuseá-los na biblioteca. E de vez em quando dou um pulinho na biblioteca da UC Davis, onde há um acervo incrível de livros de culinária. Sempre que vou lá me dá uma dor de barriga e um sentimento de confusão, pois me sinto soterrada e massacrada pelas inúmeras possíbilidades de diversão, cultura e aprendizado através da leitura. Sempre acabo pegando um ou outro livro antigo, pois tenho fascinação pelos modos de vida dos nossos antepassados. Na última vez que fui lá, parei nesse livro verde. Eu nem leio em francês, mas gosto de olhar como esses livros antigos de culinária eram impressos. Capas com letras cintilantes e menus sofisticados. Em outras épocas a culinária não era para donas de casa ou apenas narigudas curiosas escrevinhadoras de blog xeretar. Também adoro achar coisas entre as folhas desses livros. Neste tinha uma página de calendário e anotações em letra de mão feita com caneta tinteiro. O que o calendário e os rabiscos em alemão [eu presumo que seja alemão] está fazendo num livro escrito em francês me faz ficar horas divagando, imaginando quem foi o dono original dele, o quão útil ele foi pra essa pessoa, quantas receitas foram colocadas em prática e como foi que esse livro verde acabou fazendo parte da biblioteca de uma universidade no norte da Califórnia.

o primeiro livro—Ruth Reichl

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Eu nunca fui uma pessoa ligada em gadgets. Não mesmo. Até adquirir o iPhone e perceber que gadgets são super úteis. E mais do que úteis, são divertidas. Ponderei um pouco, como fiz com o super-celular, mas acabei decidindo que seria uma boa coisa adquirir o Kindle—o leitor de livros da Amazon. Um dos motivos que pesaram na balança na hora da decisão foi a facilidade de comprar, carregar e ler mais livros. Andava me sentindo um pouco frustrada com minhas parcas leituras. Gosto imensamente dos livros, mas não tenho preconceito nenhum contra novas tecnologias. E o Kindle tem a vantagem, pra mim, de compactar muitos volumes num lugar só e assim economizar um baita espaço físico, que eu já não tenho sobrando. Escolhi o novo livro da Ruth Reichl, Not Becoming My Mother, para estrear meu Kindle. Na verdade estreei a autora também, já que apesar de ter um dos seus livros, nunca tinha lido nada dela. Esse não é exatamente um livro sobre comida, mas sim um tipo de catarse pública que ela precisava fazer com relação à mãe. Eu entendi que Miriam Reichl apareceu nos outros livros da filha como uma figura engraçada. Pois ela realmente era. Preparando e servindo comidas exdrúxulas, envenenando os convidados da festa de noivado do filho, histórias que ficaram conhecidas como The Mim Tales. Neste livro, Ruth resgata a imagem da mãe, que foi uma mulher frustrada por não poder trabalhar fora e ter que enfrentar as tediosas tarefas domésticas. Tinha escutado uma entrevista da Ruth falando sobre a mãe na NPR e achei que iria querer ler o livro. E é leitura rápida, apenas 120 páginas, o que fez muitos leitores reclamarem que aquilo nem era um livro, mas sim um longo artigo. Mas livro ou artigo, não foi fácil para Ruth escrever sobre a mãe. Gostei muito da minha primeira experiência de leitura no Kindle e já estou engatando segunda para ler outro. Desta vez as aventuras do chef David Lebovitz em Paris.

» para os curiosos, dá para adicionar livros de domínio público no Kindle, usando sites como o Projeto Gutenberg. só que os livros grátis não têm a mesma formatação bonitinha dos vendidos pela Amazon. também dá pra ouvir música em formato mp3 e navegar toscamente pela internet. uma grande utilidade é poder consultar a wikipedia online. outra é o dicionário embutido que facilita buscar o significado de uma palavra dentro do texto, sem precisar sair da página. muito bom. só falta mesmo a tela iluminada para leituras noturnas e com acesso à cores, mas isso virá com o tempo, tenho certeza!