um Pequeno Livro de Cozinha

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Estou totalmente garbosa e pimpona, pois agora também tenho um exemplar do fofurésimo Pequeno Livro De Cozinha, enviado e autografado pelas próprias autoras, as Rainhas do Lar. O livro-guia-oráculo foi escrito pelas queridas e talentosas Faby e Katita e aborda absolutamente tudo o que você sempre quis saber ou apenas confirmar, sobre o mundo maravilhoso da cozinha. Já li e reli todas as dicas super valiosas. E o livro é realmente pequeno, vejam que prático, cabe aqui no bolso do avental, pra ficar sempre às mãos.

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Eu tenho zilhões de livros, livrões e livrinhos de culinária, mas o Pequeno Livro de Cozinha da Faby e da Katita é sem dúvida o mais especial para mim. Por quê? Oras, porque essas gurias me convidaram para escrever o prefácio neste primeiro livro delas. Adorei poder adicionar algumas linhas da minha prosa singela na abertura do livro e assim poder estender o tapete vermelho e fazer uns salamaleques de recepção para todos os leitores.

O que escrevi sobre o livro e sobre as meninas? Compre o seu exemplar e descubra. Boas leituras!

meu encontro com a Anna Thomas

Anna Thomas
Anna Thomas
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Anna Thomas Anna Thomas
Anna Thomas
Anna Thomas Anna Thomas
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Anna Thomas

Na sexta-feira eu estava ouvindo a minha programação regular da NPR pela manhã, quando anunciou-se uma entrevista com a Anna Thomas. Eu sou fanzoca dessa autora há muitos anos. Tenho dois livros dela, o segundo The Vegetarian Epicure e o The New Vegetarian Epicure, que carrego comigo há tantos anos, que já nem lembro quantos exatamente. Os livros dela são pequenas jóias, não só pelas receitas, mas também pelo cuidado da impressão, fontes, layout e ilustração. Adorei ouví-la ao vivo pelo rádio e me impressionei demais com a simpatia, a maneira casual e descontraída com que ela falou com o entrevistador. E para completar, anunciou que iria estar em Sacramento no domingo para um book signing na livraria The Avid Reader.

Tive que otimizar meu dia, desistir de fazer algumas coisas, para poder nadar, preparar um almoço simples e zarpar para Sac, encontrar pessoalmente a Anna Thomas e pegar um autógrafo dela no seu novo livro dedicado à sopas.

Saí atrasada, sabendo que aqui tudo começa pontualmente e já me odiando pela possiblidade de perder um só minuto de qualquer que fosse a atividade com a Anna naquela livraria. Não sei por que, mas achei que teria um tipo de palestra, como aconteceu com a Deborah Madison na Avid Reader de Davis em junho passado. Cheguei toda esbaforida, com bolsa, sacola, câmera e ela já estava sentada na mesa dos livros, conversando animadamente com os fãs, que se alinhavam numa paciente fila.

Na entrevista no rádio ela já tinha avisado que o evento teria amostras de uma sopa, receita do livro, e de um cornbread. Antes mesmo de sacar a câmera da sacola, perguntei se podia fotografar e causei uma micro comoção que terminou com a irmã da Anna vindo falar comigo. Super simpática, me perguntou se as fotos eram pra publição e eu disse que não, era para o meu blog pessoal—explica, explica, explica. Ela foi muito gentil e me pediu endereço do site, e-mail, ficha completa. Depois disso comecei a clicar, começando com o cornbread que pareceu delicioso, mas eu não provei porque tinha acabado de almoçar. Comprei meus livros e me prostrei na fila.

A Anna Thomas é sem dúvida a autora de culinária mais descontraída que eu já conheci pessoalmente. Sabe quando você se encontra com a vizinha na rua e ela te dá umas dicas do melhor lugar pra comprar aquele ingrediente especial e de quebra ainda te dá uma receita muito boa e prática, fica conversando super animada e te envolve de uma tal maneira, que você fica ali ouvindo mesmo sabendo que está perdendo a hora para algum outro compromisso.

Fiquei de orelhão pra ouvir o que ela estava dizendo pra outros fãs e meio que entrei na conversa, fazendo mil caras de concordância e balançando a cabeça afirmativamente durante todo o tempo em que ela doutrinou em favor de cozinhar os feijões secos para fazer as sopas e nunca usar feijão em lata. Participei passivamente de várias conversas até chegar a minha vez. A Anna te deixa tão à vontade que soltei a minha matraca ali na frente dela, falei que tinha ouvido ela no rádio, que tinha um blog, que não era oficialmente vegetariana, mas que minha comida era, disse até que ela era muito mais bonita pessoalmente do que nas fotos—e de fato é, não somente pela beleza física, mas porque ela tem uma vibração muito legal, de pessoa feliz.

Ela me contou que é amiga do David Leite, o porta-voz e divulgador da culinária portuguesa aqui nos EUA. Ela também me contou que nunca esqueceu da sopa caldo verde que tomou em Portugal numa das primeiras vezes que foi a Europa. E hoje usa muito a base do caldo verde para fazer as suas deliciosas sopas. Foram apenas alguns minutos ali conversando sobre comida com a Anna Thomas—eu acorcundada porque não consigo conversar em pé com uma pessoa que está sentada, preciso estar próxima, tête-à-tête—mas eu senti uma intimidade enorme com ela. Acho que todos sentem.

Depois que ganhei autógrafos nos meus livros, fui provar a sopa de feijão preto com butternut squash servida com um molho de pimenta e um pingo de azeite extra-virgem. Fiquei conversando com uma funcionária da livraria que nem perguntei o nome. Falamos de comida, de blogs, de livros, da Anna e da Julia Child, de ingredientes. Tomei a sopa, que estava muito gostosa, e me despedi suando. Estava um forno em Sacramento hoje, um dia nada apropriado para sopas quentes feita com ingredientes robustos. Na volta, perdi até a entrada mais comum que eu uso para chegar em Davis, de tão distraída que estava, pensando em simpatia, em alegria, em entusiasmo e paixão, em comida e sopas.

* já vi que no Love Soup tem um capitulo só de sopas frias—acho que ainda tenho tempo de colocar algumas em prática.

how to cook everything vegetarian

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by Mark Bittman

Sou uma pessoa cheia de manias e chatices. Sempre fui e só estou piorando com o passar do tempo. Só faço o que quero e como quero. Na minha organização aparentemente descuidada e caótica, está implantado o meu sistema pessoal de fazer as coisas, a maneira como eu funciono. Uma das coisas que muita gente pode não entender é a minha mania de comprar livro que vou levar anos para ler. Faço isso com muita frequência, comprando os livros que quero ter, o que nem sempre coincide com a minha vontade e necessidade de ler.

Então há mais ou menos uns dois anos eu trouxe para casa o livrão How to Cook Everything do Mark Bittman e coloquei na estante. Nem pensei mais nele. Meses depois trouxe o outro livrão do mesmo autor, How to Cook Everything Vegetarian e encaixei na estante, ao lado do primeiro. Comprei e não li, assim como comprei e li muitos outros livros depois disso. Há mais ou menos uns dois meses, sem nenhuma razão aparente, removi o livro de cor verde da estante e desde então tenho carregado ele pra cima e pra baixo, literalmente, pois levo pro quarto para ler, depois levo pra cozinha para por alguma das receitas em prática. Vou marcando as páginas, que nesta altura estão praticamente deformadas de tanto post-it e outros objetos que uso para marcá-las—incluíndo um garfo de madeira quebrado.

Já estou quase no final da minha exploração minuciosa do How to Cook Everything Vegetarian, que é um calhamaço de quase mil páginas. O que mais me interessou nesse livro foi a maneira como o Mark Bittman, que é um minimalista como eu, apresenta as receitas. Ele fala tanto para os iniciantes na cozinha, como para os cozinheiros com mais prática. Para iniciantes, ele dá todas as lições simples sobre utensílios, técnicas e ingredientes, além de listar praticamente todas as receitas básicas existentes. Para os cozinheiros mais desembaraçados, ele dá zilhões de dicas, variações das mesmas receitas básicas, que foi a parte do livro que mais gostei. As idéias são absolutamente criativas e fáceis de serem aplicadas na prática. Talvez um iniciante tenha um pouco de dificuldade para substituir os ingredientes e fazer modificações nas receitas. Mas eu gostei imensamente da brincadeira. Recomendo esse livro para a sua biblioteca básica de culinária, se você estiver dando os primeiros passos na cozinha e como fonte de inspiração, se você já arrisca dar voos solos mais ousados. É um livro para vegetarianos e veganos e também para não vegetarianos como eu, que colocam os legumes, verduras e frutas como elementos protagonistas nas refeições.

O livro não tem fotos. Só algumas ilustrações puramente educativas aqui e acolá. Um livro com quase mil páginas sem fotos coloridas das receitas pode ser interessante? You betcha!

a última leva

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Eu compro livros compulsivamente, embora meu tempo para leituras seja bem limitado. Mas já tendo os livros nas estantes, me organizo para ir lendo aos poucos, em etapas, conforme vou sendo direcionada por curiosidade, dúvida ou interesse. Essa leva de livros chegou há duas semanas. Ja folheei todos, até marquei algumas coisas interessantes, mas ainda não consegui ler com mais cuidado e por algumas coisas em prática. Os dois do Mark Ruhlman já são bem conhecidos e achei Ratio bem interessante [so far]. O The Flavor Bible foi recomendação da Elise e recomendação da Elise pra mim é ordem! Achei bem legal, pelo que já vi. Os autores dão inúmeras possíbilidades de combinação de ingredientes. Acho que Ratio complementa The Flavor Bible, um dando as proporções básicas para algumas receitas e o outro abrindo um horizonte extremamente amplo para combinações de sabores. E o último, Vefa’s Kitchen, outro volumão da editora Phaidon, todo dedicado à culinária grega. Como os outros livros dessa editora, o Vefa’s é lindo, cheio de fotos e receitas maravilhosas. Vou precisar de tempo para examiná-lo com cuidado, mas só uma passada os olhos pelas centenas de páginas já foi suficiente para marcar várias receitas.

meu encontro com a Deborah

Deborah Madison
Deborah Madison Deborah Madison
Deborah Madison
Deborah Madison Deborah Madison
Deborah Madison
Deborah Madison

Eu entrei na livraria e dei de cara com ela. Como é natural reagir quando se é pego de surpresa frente a frente com uma celebridade, cumprimentei-a efusivamente, como se tivesse acabado de reencontrar uma velha amiga. Ela respondeu, como deve estar acostumada a fazer. Quantos dos seus fãs e leitores não a devem cumprimentar da mesma maneira? Uma dúvida me tomou de imediato: não, não pode de jeito nenhum ser ela, assim vagando pela pequena livraria, olhando os livros em promoção e conversando com umas pessoas na maior naturalidade do mundo. É ela sim! É ela, sim, só pode ser ela! Impossível não reconhecer a Deborah Madison das fotos que estampam as capas dos seus livros. A singeleza, o sorriso, a simplicidade.

Fui logo pegando uma cadeira bem na frente do lugar de onde ela iria falar com o público. E tinha bastante gente se acomodando, duas poltronas reservadas, uma delas para a mãe da autora, uma senhorazinha tão fofa quanto a filha. Já fui aproveitando para tirar fotos, enquanto me re-idratava com um copo dágua. Eu sou um bocado tímida e fico com meus suores nervosos quando dou uma de tonta alegre falando com alguém que não me conhece como se fossemos intimas. E também fico toda inibida de ficar tirando fotos das pessoas.

Ao meu lado sentou-se um casal e logo o senhorzinho virou-se na minha direção, me cutucou e disse—você sabia que muitos anos atrás a Debby foi babá dos nossos filhos? Uau, que bacana, eu respondi. Trocamos algumas idéias sobre os livros dela e ele me contou que apesar de cozinhar para dois, só usava uma receita: a de minestrone. Com um pouco de queijo parmesão, um belo pedaço de pão, temos comida para vários dias, ele reinterou. E que comida boa, eu retruquei. Um minestrone tem tudo, não precisa de mais nada!

Enquanto os convidados se ajeitavam nas cadeiras, pessoas se reencontravam e papinhos informais brotavam aqui e ali, a Deborah conversava com muitos conhecidos e já dava alguns autógrafos. O sinal gritante da minha falta de familiaridade com a autora mostrava-se no fato de eu chamá-la de Deborah. Todos a chamavam de Debby, porque muita gente ali a conhecia de muitos anos, não só como autora de livros bacanas e pela sua história com o famoso restaurante Greens em San Francisco. Deborah Madison, ou melhor Debby, cresceu em Davis, quando teve a oportunidade de ser babá dos filhos do simpático casal e estudar na UC Davis. Estar em Davis é, como a própria Debby afirmou, estar em casa.

Eu, além de não ter conhecido a Debby de Davis, mas apenas a autora Deborah Madison, ainda estava intrometidamente sorrindo e tirando uma foto atrás da outra. Debby me olhava de vez em quando com o rabo do olho, com aquela cara de dúvida, talvez pensando que eu era uma conhecida de quem ela tinha esquecido o rosto, o nome e a história.

Bem diferente do meu encontro com a Alice Waters anos atrás em Berkeley, quando havia uma organização toda em função da tarde de autógrafo da famosa autora, com a Debby foi tudo muito casual. Sem muitos salamaleques, ela já foi começando a falar, com uma introdução breve feita pela dona da livraria. Todo mundo conhece a Debby, não precisa de enrolação. E ela então relatou toda a história do seu novo livro—What We Eat When We Eat Alone, uma colaboração entre ela e seu marido, o artista Patrick McFarlin.

Debby contou que ela e Patrick passaram uma época viajando por diversos países experimentando azeite de oliva, e nessas visitas eles encontravam muita gente famosa, chefs e culinaristas, artistas, escritores e poetas. Enquanto rolava as degustações, Patrick ficava meio entediado, então começou a entrevistar as pessoas, mas ao invés de sair distribuindo a famosa pergunta—o que você faz—resolveu perguntar outra coisa—o que você come quando come sozinho? O resultado das respostas acabou virando esse livro, com texto e receitas da Debby [e de muitos dos entrevistados] e ilustrações divertidíssimas do Patrick.

Debby leu vários trechos do livro, que incluí algumas poesias e é completamente fofo! Ainda vou falar mais sobre ele por aqui, quando acabar de ler. Comprei dois exemplares, um pra mim e outro para a minha amiga Leila, que como eu, come sozinha eventualmente. A Debby ainda respondeu perguntas do público e depois sentou-se casualmente na cadeirinha e sem organização nenhuma de assistente nenhum, começou a dar autógrafos. Eu me posicionei rapidamente na fila que se formou e um casal atrás de mim perguntou se eu era do jornal e se as fotos iriam sair em algum lugar que eles pudessem ver. Não, são só pra uso pessoal, respondi envergonhada e fui logo puxando o assunto pros livros da autora.

Tremi como vara-verde por uns segundos quando chegou a minha vez de falar com ela. Pensei em me ajoelhar no chão, mas no final resolvi ficar curvada e disse, assim que ela me olhou e sorriu mais uma vez—estou tão contente por tê-la conhecido, eu uso muito os seus livros! Enquanto ela autografava o meu livro e o da Leila, batemos um ligeiro papinho, ela dizendo que meu nome era lindo e que esse livro novo era bem diferente dos outros e eu respondendo e tentando não falar nenhuma bobeira. No final comentei que tinha adorado o colar que ela estava usando, feito com sementes de açaí. Ela respondeu que tinha comprado o colar numa loja sem saber do que era feito. São sementes de uma fruta brasileira muito comum no Amazonas, fui explicando. Agradeci, disse outra vez o quanto estava feliz em conhecê-la e sai carregando os livros, a câmera, a bolsa, e meu corpo cambaleante com uma cabeça atrapalhada, que por uns segundos perdeu a noção de localização e zanzou pela livraria sem saber pra que lado estava a saída. Mas antes de me localizar e sair da livraria em direção à minha casa, ainda bati mais algumas fotos daquela moça tão simpática e tão querida, a nossa Debby de Davis.

os livros de Tessa Kiros

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Falling Cloudberries

Tessa Kiros é uma multiculturalidade ambulante, nascida na Inglaterra, filha de uma mãe filandesa e de um pai grego-cipriota, foi criada na Africa do Sul e hoje, casada com um italiano, vive na Itália, depois de ter trabalhado em diferentes restaurantes em diferentes partes do mundo. O primeiro livro dela—Falling Cloudberries—eu recebi de presente anos atrás, gentileza da Valentina, que comanda o blog Trem Bom. Nele, Tessa conta um pouco da sua história e da sua família incomum, com fotos lindas, receitas filandesas, gregas, sul africanas e italianas incrivelmente inspiradoras e um texto encantador, que nos conquista com uma prosa nostálgica e romântica. A delicadeza está em todos os detalhes nos livros dessa autora, que cuida para que a leitura seja uma viagem cheia de experiências. Eu, particularmente, adoro os desenhos em alto relevo nas capas, sem falar nas fotos, que não mostram aquelas comidas maquiadas e perfeitas, e conseguem nos deixar com a confortável sensação de que podemos fazer igual.

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Apples for Jam

Agora comprei o terceiro livro dela—Apples for Jam—que é outra pequena obra de arte. Nele, Tessa continua contando histórias de família, desta vez mais recentes, da infância das suas duas filhas, que ela chama de ratinhas. O livro também incluí os amigos. As receitas em Apples for Jam são divididas por cores e outra vez Tessa nos dá aquela sensação de intimidade e familiaridade, reforçando a idéia de que podemos fazer as mesmas receitas nas nossas cozinhas comuns, sem sentir que estamos apenas tentando reproduzir as idéias de uma cozinheira perfeita.

Os livros da Tessa Kiros não foram feitos para ficarem enfiados e escondidos em prateleiras de estantes e armários. Eles merecem os holofotes, como decoração numa mesa de centro, para que possam estar sempre à vista e às mãos, e assim serem folheados e apreciados sempre que houver uma oportunidade.

[*]únicos defeitos desses livros—no primeiro a fonte usada para a explicação das receitas é tão minúscula, que mesmo com óculos tive dificuldade para ler. no segundo, todas as receitas e textos usam uma fonte maiorzinha, mas de cor cinza bem claro, que em contraste com o fundo branco, nem um binóculo infravermelho dá jeito.

Crank’s Restaurant
[vegetarian cooking]

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Esse é outro livro que eu carrego comigo há muitos anos e que me inspira sempre. São receitas do original e inovador restaurante vegetariano Crank’s, que foi muito famoso na Londres dos anos 60. Comprei o livro nos meus primeiros anos no Canadá e ele não foi só fonte de inspiração para receitas.
Por causa das lindas fotos dos pratos e vasilhas artesanais que o restaurante usava, me animei para fazer um curso de cerâmica e achei que seria capaz de fazer meu próprio conjunto de pratos e utilitários de mesa. Que frustração! Depois de lutar por meses com a argila e a mesa rotatória, percebi que não conseguiria fazer nem um porta-lápis usável e decente. Consegui terminar três potinhos tortos, que abandonei nas premissas do atelier. Uma amiga pintora os resgatou, pediu para outra amiga ceramista esmaltar e queimar e me deu as obras de arte de presente. E assim encerrou-se minha aventura artistica com as mãos no barro.
Mas o livro do restaurante Crank’s continuou me abastecendo durante todos esses anos com receitas simples e maravilhosas, como esta:
mushroom stroganoff
1 cebola grande
4 talos de salsão
3 xícaras de cogumelos
4 colheres de sopa de manteiga
1 colher de sopa de farinha de trigo integral
1/2 xícara de caldo de legumes
1/2 colher de chá de tomilho
1 pitada de louro em pó
1/2 xícara de sour cream
Sal e pimenta do reino moída a gosto
Salsinha picada para enfeitar
Pique a cebola, o salsão e o cogumelo. Derreta metade da manteiga numa panela e refogue a cebola e o salsão. Adicione o resto da manteiga e o cogumelo, mexendo de vez em quando por 3 minutos. Adicione a farinha e depois o caldo e as ervas. Deixe ferver, reduza o fogo e cozinhe destampado por 3 minutos. Desligue o fogo, acrescente o sour cream, o sal e a pimenta. Sirva com arroz branco. Polvilhe com a salsinha picada.

Simca’s Cuisine

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Fiquei um pouco surpresa comigo mesma por nunca ter comentado aqui a minha leitura da biografia póstuma da Julia Child—My Life in France. Acho que isso aconteceu porque demorei pra engatar nos capítulos e depois fui lendo muito devagar, parando e recomeçando, terminando por ficar horrivelmente abalada pelo final do livro, quando ela descreve a decadência física do marido, concluindo que envelhecer é muito cruel. Quando finalmente fechei o livro, mais de um ano depois de tê-lo comprado no frenesi da novidade, chorei desesperadamente, de soluçar e sacudir o corpão inteiro, de assustar o gato, de molhar a roupa, de encher o buraco das orelhas com lágrimas, de doer o maxilar, de ficar com os olhos ardendo e inchados e de acabar com uma baita dor de cabeça. Esse livro me sacudiu, porque de uma certa maneira eu me identifico um pouco com o percurso da Julia Child. Ela viveu uma vida linda e plena, mas o fim é sempre o fim.

E é no My Life in France que a Julia conta todo o processo da produção dos dois volumes do best seller Mastering the Art of French Cooking, que ela escreveu com a colaboração de duas amigas: Louisette Bertholle e Simone Beck. Esses livros, cujo objetivo era divulgar receitas e técnicas da culinária francesa para o público norte-americano, levaram anos para ficarem prontos por causa do perfeccionismo das autoras, especialmente de Julia e Simone, que era mais conhecida como Simca. Louisette cascou fora assim que pôde, mas a colaboração entre as outras duas amigas ainda durou alguns anos. No livro, Julia conta como foi essa cooperação com Simca—um relacionamento nada suave, apesar da Julia ter uma grande consideração pela amiga francesa. Eu me irritei muito lendo as implicâncias e turrices de Simca no final da revisão do primeiro volume. E me compadeci de Julia durante a tortura e o calvário que foi o trabalho conjunto das duas pra o segundo volume. O relacionamento da Julia Child com essa amiga difícil fez com que ela subisse mais ainda no meu conceito, tal a sua paciência, dedicação e lealdade. Simca ficou pra mim como uma completa chatonilda de galochas.

Simca se ressentia de várias coisas, entre elas do destaque que a borbulhante e simpática Julia ganhava durante a divulgação do livro escrito pelas duas. Sendo Mastering the Art of French Cooking uma adaptação das receitas e técnicas francesas clássicas para o público norte-americano, Simca teve que lançar o seu livro com suas receitas especiais, com o seu jeito de fazer, que era o jeito francês e portanto o jeito certo. Simca’s Cuisine parece para mim o livro do desforro com luvas de pelica: desaforento embora gentil, onde ela coloca suas cartas altas na mesa—o verdadeiro livro da culinária francesa. Que na realidade é uma versão particular, com receitas que ela fazia em casa e heranças de família. Ninguém se importou muito com o livrinho da Simca, ocupados que estavam comprando, lendo e preparando receitas do livro da Julia Child [que era também da Simca, alguém lembrou?]. Simca’s Cuisine é um livro de receitas muito fofo e tudo parece incrivelmente simples e singelo. Mas muito cuidado mes amis, porque analisando cuidadosamente percebi que as receitas da Simca podem até ser um tantinho blasé, mas não são de maneira alguma descomplicadas.