Era nosso restaurante japonês favorito aqui em Davis. E como tem restaurante japonês aqui em Davis! Mas esse era caprichado, um lugarzinho pequeno, dois sushi men, um cozinheiro mal humorado, a gerente e as mocinhas garçonetes, todas asiáticas, todas vestidas de cor-de-rosa, todas chamando a gente de ‘guys‘ e fazendo os salamaleques na entrada e na saída. O serviço era meio desorganizado, talvez devido ao mau humor do cozinheiro e à imaturidade das meninas garçonetes, então às vezes a entrada chegava depois do prato principal, mas tudo bem, a gente nem ligava e pedia sempre a mesma coisa—o Uriel um prato com peixe e eu um sushi de camarão com lagosta, mais a sopa de missô, a salada de pepino e o tofu frito, que dividíamos.
Mas num fatídico dia o Uriel resolveu pedir sushi. E vocês não sabem dessa praga carmica, mas coisas estranhas se materializam no prato dele, sempre no dele—pelo de animal, cabelão afro ou loiro, cascas, insetos, objetos alienígenas de todos os tamanhos, cores e aspectos. Dá até raiva. Ele faz aquela cara e você já sabe, ele achou algo. E nesse dia ele fez uma cara torta de quem mastigou algo estranho, daí cuspiu discretamente os mastigados do sushi no cantinho do prato e eu já revirei os olhos pensando lá vem coisa, e era uma pedra. Uma pedra dentro do sushi.
Chamamos a gerente e mostramos a pedra. A reação dela foi o que mais nos surpreendeu, muito mais do que achar a pedra dentro do sushi. Ela disse—ah, desculpa, é uma pedra, é do arroz, desculpa às vezes acontece. se tivessemos visto, teríamos tirado, desculpa mas acontece, às vezes acontece de ter uma pedra no arroz.
ACONTECE? Às vezes ACONTECE?
O nosso japa favorito virou história. Depois de tantos anos frequentando o lugar assíduamente não poderemos voltar mais lá, infelizmente, porque se acontece de ter pedra no arroz, não dá mais pra confiar, né?