smoke gets in your eyes

Todo mundo que passa por aqui deve saber que eu tenho uma obsessãozinha por filmes antigos. Aliás, filmes antigos é quase só o que eu assisto. Tenho preferência pelos da década de 30, mas assisto de tudo, gosto de observar os micro-detalhes, além de curtir a história, os atores e tal. Uma coisa super notável nos filmes de 34 pra frente, quando se reenforçou o código para os filmes de Hollywood e acabou com o bacanal de mulheres semi-nuas, sexo, violência e all that jazz, é a presença constante do cigarro. Bom, não se podia fazer mais absolutamente nada, as mulheres tinham que se vestir com casaquetes fechados até o pescoço, os casais não podiam dormir na mesma cama e beijar só de lábios bem selados, então o jeito era fumar, e fumar muito!

bette_cigarette.jpg

Três objetos que hoje estão praticamente em desuso, eram necessidade básica naqueles tempos—o isqueiro, coisa fina para os ricos, os pobres usavam aquela outra coisa que se riscava na sola do sapato pra acender o cigarro; a cigarreira, também outra coisa fina, geralmente presente do amante com iniciais encravadas, os pobres tiravam aquele maço de papel amassado do bolso do paletó surrado; e o cinzeiro, que ficavam espalhados pela casa e eram tão populares que eram vendidos desde em lojas como Tiffany até nas biroscas de turistas em Niagara Falls—e que deve ser hoje o único lugar onde pode-se ainda achar um deles.
A atriz com luvas brancas, chapéu com peninhas e redinha e um terninho incrívelmente sufocante, já entra em cena segurando um cigarro. E era um cigarro sem filtro, porque ela tira um naco de fumo da língua, como eu via algumas pessoas que fumavam Minister sem filtro lá na minha pré-história na década de sessenta, fazer. Eram pessoas mais pobres, que não podiam comprar o fino Hollywood com filtro. Presumo que na decada de quarenta todos os cigarros eram sem filtro. Até a Bette Davis tirava naco de fumo da língua, porém com luvas e com muito charme.
Cigarros eram tão parte de tudo, que ninguém se importava com ele, Fumava-se comendo, beijando, dentro do elevador, nas festas de criança, no banheiro, durante brigas, fazendo sexo em camas separadas, é claro. Cigarro não incomodava, muito pelo contrário, quando alguém entrava em cena, oferecia-se um cigarro, como hoje se oferece um vinho do porto, um copo de água, um cafézinho passado na hora, um chiclete de menta. Chegava a vamp de chapéu e o pitéu de casaco com corte perfeito de alfaiate abria a cigarreira de prata e oferecia um cigarro. Ou havia uma caixa de cigarros na mesa de centro e o casal dividia as baforadas, ou ele acendia os dois cigarros e passava um pra ela. A primeira coisa que se fazia, antes de tudo, até do café da manhã, era fumar. Os filmes antigos têm aquela tênue névoa pairando no ar em todas as cenas. Era o fumacê discreto do sempre presente cigarro.
Hollywood já não é a mesma, principalmente porque hoje na Califórnia não se pode fumar em praticamente nenhum lugar público. Mesmo do lado de fora, há regras. Em alguns lugares, por exemplo, pra poder dar umas baforadas no cigarrinho, o fumante marginalizado tem que estar a pelo menos seis metros de qualquer janela ou porta de qualquer prédio. Eles ficam lá sozinhos, fumando no ostracismo, os passantes desviando, como se o fumacê tivesse bactérias nauseabundas ou vírus contagiantes. Acabou o glamour, hoje quem fuma não é mais Bette Davis.
* eu não fumo, nunca fumei.

the art of dunking

1night2.jpg 1night3.jpg
1night4.jpg
1night5.jpg 1night6.jpg
1night7.jpg 1night8.jpg

“dunking is an art, don’t let it soak too long. a dip and sock, into your mouth. if you let it too long it become soggy and falls apart. it’s a matter of timing. i’ll write a book about that. 20 millions and you don’t know how to dunk!”
It Happened One Night, é um filme fofésimo, dirigido pelo Frank Capra em 1934. Eu já revi esse filme tantas mil vezes que já sei até alguns diálogos decor. O filme foi feito sem nenhuma ambição e acabou sendo uma surpresa no box office e abocanhando um monte de Oscars. É um road movie onde os personagens estão tentando se locomover do ponto A para o ponto B e na duração desse trajeto toda a trama de desenvolve. Em It Happened One Night, uma ricaça mimada [Claudette Colbert] está fugindo do pai, tentando chegar em NY para se casar com um canastrão. Seu companheiro de banco no ônibus é um jornalista desempregado [Clark Gable], que vai ajudá-la a chegar ao destino, na esperança de vender a história para o jornal. Nem preciso dizer o que vai acontecer. né? Bom, nos anos 30 o povão viajava de trem e ônibus e neste filme o meio de transporte é o busunga. Como eles estão atravessando o país, a viagem é longa e cheia de paradas. Numa delas, os passageiros têm a oportunidade de dormir num motelzinho e é o que Colbert e Gable fazem, tomando o cuidado de dividir o quarto com as muralhas de Jericó—um cordão com um lençol pendurado, afinal de contas eles não eram casados!
Na cena do motel, Gable acorda antes e prepara o café da manhã, que consiste de café preto, um ovo e um donut para cada um. Enquanto tomam café e conversam, Colbert enfia o donut no café e Gable faz uma cara de horrorizado! Você não sabe mergulhar o donut no café? Tem que fazer em movimentos rápidos, mergulhar e colocar na boca, se deixar muito tempo no café ele fica muito molhado e se desmancha. 20 milhões de dólares e não sabe molhar um donut! Ela aprende a lição rapidamente e molha o donut da maneira que ele ensinou. Uma cena pra se guardar na memória e aprender, afinal mergulhar o donut no café é uma arte!

and she can’t cook!

christmas_c_0.jpg
christmas_c_3.jpg christmas_c_4.jpg
christmas_c_6.jpg christmas_c_7.jpg
christmas_c_8.jpg
christmas_c_9.jpg christmas_c_10.jpg
christmas_c_11.jpg christmas_c_12.jpg
christmas_c_13a.jpg christmas_c_14.jpg

Imagine se a rainha da culinária, com a coluna mais famosa, na revista mais lida, que desse receitas e dicas maravilhosas direto da sua fantástica casa, na sua fazenda em Connecticut, fosse na verdade uma farsa. Imagine essa deusa doméstica vivendo num apartamentinho em New York e sendo suprida por receitas pelo seu tio Felix, um hungaro mal humorado. Barbara Stanwyck é a Martha Stewart fajuta dos anos 40 nesse filme fofésimo, recheado de citações culinárias e cenas de comida e cozinha. Christmas in Connecticut é delicioso, não só pelas referências culinárias, mas porque a história é uma gracinha. A colunista fajuta é obrigada pelo dono da revista onde ela escreve a receber um herói de guerra para o Natal. O único problema é que ela não tem fazenda nenhuma e pior, ela nem sabe cozinhar. Um ricaço apaixonado oferece a sua fazenda em Connecticut e a farsa é montada. Mas numa comédia romântica já sabemos o que vai acontecer, né? Um filme clássico de Natal, que todos vão curtir, mesmo não vivendo em Connecticut, nem sabendo cozinhar.

Marius, Fanny e César

chezpanisse.jpg
cesar2.jpg
cesar4.jpg marius1.jpg

Quando fiquei sabendo da obsessão de Alice Waters pela trilogia do francês Marcel Pagnol—Marius, Fanny e César, tive que correr atrás e ver por mim mesma o que esses filmes tinham de tão sensacional. Alice ficou tão impressionada que passou a se vestir com modelitos da década de trinta—incluindo boinas e chapéus que viraram a sua marca registrada, batizou seu restaurante com o nome de um dos personagens e até o empreendimento, que incluia os sócios da empreitada, recebeu o título de Pagnol et Cie. Anos depois, quando teve uma filha, batizou a menina de Fanny e casou-se com um vestido similar ao que a personagem Fanny usou no seu casamento no filme. Alice decorou o café do Chez Panisse, que fica no andar superior da casa que abriga o restaurante, com posters dos três filmes de Marcel Pagnol. Só isso basta pra nos deixar curiosos?
A trilogia, que é composta dos filmes Marius de 1931, Fanny de 1932 e César de 1936 é realmente uma jóia rara. Pagnol tinha escrito as histórias originalmente para o teatro. A transposição para filme foi feita com os mesmos diálogos e atores. A trama dos três filmes é centrada no no dia-a-dia dos habitantes da região do porto de Marseille, em especial os frequentores do bar de César e o romance entre Marius e Fanny. Nos três filmes acompanhamos a trajetória dos personagens principais através dos anos, com porções de romance, comédia e melodrama. São filmes pra se divertir e emocionar. Duas coisas bem notáveis são o formato de teatro dos filmes, com diálogos longos e cheio de detalhes, que não era muito comum no cinema mais popular da época—o norte-americano. Pra mim, que estou acostumada com a superficialidade dos filmes dos anos 30 de Hollywood, essa trilogia muitas vezes incomodava pelo exagero de falação dos personagens. Mas é justamente isso que nos envolve na história e dá uma sensação de grande familiaridade com os personagens. Outro ponto interessante é a visão da França a partir da perspectiva dos provençais. Há muitas piadas dos marsellenses com relação aos lyoneses e principalmente com os parisienses. Li que a cidade que aparece no filme foi destruída durante a segunda grande guerra e depois reconstruída, mas que o charme ainda é o mesmo.
Depois de ver os três filmes e o documentário sobre Marcel Pagnol, entendi um pouco melhor a obsessão de Alice Waters. Sendo eu também uma alma desvairada e obstinada, não é difícil perceber como certos trabalhos de arte provocam tanta comoção e reação, e de uma idéia brotam mil outras, dando continuidade ao processo de criação e inspirando grandes mudanças.

Cooking Breakfast For The One I Love

breakfast_love1.jpg breakfast_love2.jpg
breakfast_love3.jpg breakfast_love4.jpg
breakfast_love5.jpg breakfast_love6.jpg

Be Yourself é um filminho de 1930 muito divertido, com a figurete Fanny Brice, que ficou conhecida por gerações mais recentes quando Barbra Streisand a reviveu no teatro e no cinema, com a semi-biografia Funny Girl. Numa cena de Be Yourself a personagem da Fanny prepara o café da manhã para o namorado. Ela faz tudo enquanto canta, com todo amor e dedicação.
Ela prepara bacon, biscuits e oatmeal. Enquanto ela labuta subservientemente entre a cozinha e a sala, ele não move a bunda do sofá, onde senta-se confortavelmente apenas lendo o jornal. No filme, ela é uma artista, uma mulher forte e independente. Mas quando se trata de agarrar o homem—como ela mesma canta, tem que ser pelo estômago. E quando ele finalmente senta-se à mesa pra comer a refeição preparada por ela, ainda tem a cara dura de reclamar do mingau de aveia! E o pior nem é isso. O pior é que apesar de todo o esforço que ela faz, ele no final a troca por uma sirigaita loira, sem carater e interesseira.

sopa de ameixa seca

wedding6.jpg
wedding5.jpg
wedding7.jpg wedding8.jpg
wedding9.jpg wedding11.jpg

Essas cenas são do filme The Wedding Night de 1935, com um dos meus atores favoritos, Gary Cooper. O diretor King Vidor ganhou o Oscar de melhor diretor do ano por esse filme, que tem uma história muito fofa, apesar do final extremamente broxante [o Código, que moralizou Hollywood, já estava em vigor]. Gary Cooper é um escritor novaiorquino passando por uma fase ruim. Ele vai para Connecticut, tentar escrever um livro e fica na casa que herdou no meio dos campos de tabaco. Lá ele conhece a filha de imigrantes poloneses, Anna Sten. Ela leva para ele toda manhã o leite que ela mesma tira da vaca. Acaba fazendo também uns trabalhinhos domésticos pra ele, depois que o serviçal chinês o abandona e volta para New York. Os dois se apaixonam, la-di-dah, mas o problema é que ele é casado e ela está prometida em casamento para um amigo da família. O filme tem muitas cenas com comida, quis comentar todas, mas resolvi me restringir à apenas duas.
Na primeira, Cooper é convidado para jantar com a família polonesa, que incluí também os amigos. Os adultos sentam e comem, liderados pelo patriarca. As mulheres servem e sentam-se à mesa por último. As crianças esperam sentadas num banco duro e sentam-se à mesa para comer as sobras quando os adultos terminam—achei isso o cúmulo da crueldade. Na mesa se vê o pão e o vinho. O prato principal é a sopa de ameixa seca [prune soup]. Cooper leva a primeira colherada à boca com uma certa relutância. Depois declara aliviado—é muito boa!
Na outra cena, Cooper se vê sozinho na casa gelada e tenta acender o fogão para fazer o café da manhã. Reparem no fogão! Anna chega trazendo o leite, acende o fogão pra ele e prepara panquecas e café. Ele devora as panquecas com maple syrup enquanto ela bebe o café com leite às colheradas, enquanto conversam. Um amor de cena!
Fui procurar pela receita de sopa de ameixa seca e só achei essa, que é mais um cozido e de origem alemã. Mas fica aqui, caso alguém queira tentar.
Grandma’s Prune Soup
1 quilo de carne para assar
Sal e pimenta a gosto
Caldo de carne
4 batatas descacadas e cortadas em quatro
1 cebola média picada
1 xícara de ameixas secas cortadas em quatro
1 xícara de uvas passas
Vinagre de maçã
Lave a carne e coloque numa panela grande e cubra com água. Adicione o sal e a pimenta. Cozinhe a carne em fogo alto até a água começar a ferver. Abaixe o fogo e tampe a panela. Cozinhe por duas horas até a carne ficar bem macia. Remova a carne do caldo e coloque numa travessa para esfriar. Remova a gordura do caldo. Reserve 1 litro desse caldo. Se não for suficiente, adicione caldo pronto de lata ou caixinha. Corte a carne em pedacinhos. Coloque a carne de volta na panela com as batatas, cebola, ameixas e passas. Adicione o caldo para manter sempre o mesmo nível de liquido na panela. Cubra e cozinhe por uma hora. Ajuste os temperos. Sirva em tigelas com um pão rústico. Use o vinagre como condimento. Experimente com outros vinagres, como o de pêra ou o balsâmico.

Ratatouille – o filme e o rato

Quando vi o Roux naquela posição tensa e rígida no patamar da janela, imediatamente corri pra tentar ver o que ele estava vendo. Um coelho? Um passarinho? Ou, argh, um rato? Fixei meus olhos na direção do focinho do felino e vi, galgando ligeirinho pelo tronco do meu limoeiro, uma IMENSA RATAZANA CINZA!!

Fiquei descabelada! Liguei para a empresa de controle de pestes que nós contratamos ratatouille_littlechefremypara lidar com as formigas e que chamamos para outros casos quando precisamos. Deixei um recado extremamente nervoso. No dia seguinte na hora do almoço chega o rapazinho da empresa.

—estou respondendo a um chamado sobre roedores…
—sim, e eu quero ver esses ratos todos MORTOS!

Pegamos a sessão das dez para ver o novo filme de animação da Pixar. Nem pensem que eu sou do tipo que vejo esse tipo de filme. Os poucos que vi até hoje foram puro acidente, normalmente assistidos no avião, durante uma viagem longa, quando acabam todas as outras opções. Acho tudo muito lindinho, mas esses filmes não são bem a minha praia. Nunca sairia de casa de livre e espontânea vontade para ver no cinema uma animação da Pixar. Mas ontem eu fiz, porque o filme era Ratatouille, a história do ratinho cujo sonho é se tornar um chef em Paris.

Andei lendo que essa é a melhor e mais perfeita animação feita pela Pixar. É realmente impressionante a riqueza dos detalhes e pormenores. Muitas vezes quase juramos que as cenas são reais. O ratinho, little chef Remy, é a coisinha mais fofa e encantadora do mundo! Os ratos do filme não são estilizado nem embelezados, para se tornarem fofinhos. São ratos mesmo, vivendo em sótãos ou esgotos, roubando comida. Mas Remy tem o paladar e o olfato super desenvolvidos e refinados e é fã de Gusteau, um chef parisiense famoso. O filme vai agradar toda a blogosfera culinária. É impossível não se identificar um pouco com Remy e não ficar balançando a cabeça e rindo com cara de bobo em certas cenas. Uma em especial, quando o temível crítico Anton Ego [dublado por Peter O’Toole] coloca a primeira garfada do ratatouille feito por Remy na boca—é de rolar lágrimas bolotudas pelo rosto. O filme é simplesmente um primor.

Ficamos com aquele riso nervoso enquanto víamos o bando de ratazanas do filme. O que vamos fazer com o rato invasor do nosso quintal, que está comendo nossas nectarinas e tomates? Meu marido disse que mesmo glamourizados em filminhos, ratos continuam ratos. Mas como eu sou uma pessoa abobalhada, fiquei com a imagem do Remy misturada com a visão da ratazana descendo do meu limoeiro. Ratos de animação, ratos de verdade: amem e odeiem.

Waitress

Outro filme, que apesar do intenso buzz de público e crítica, eu enrolei o quanto pude para ver, pois quando assisti ao trailer tive a impressão que esse seria um caso típico de filme que o trailer seduz e engana, e com certeza iria ser chatinho pacas. Quem já não foi iludido por um trailer de filme bem montado? Eu já! Mas no trailer de Waitress o que realmente fisgou a minha atenção foi as tortas que a protagonista faz para o café onde trabalha. É através delas que a garçonete exorciza seus problemas. E eles não são poucos: infeliz e casada com um cretino, ela fica grávida sem querer ficar, e ainda se envolve num love affair com o seu ginecologista, que é casado. O filme se arrasta um pouco demais pro meu gosto e eu não consigo simpatizar cem por cento com a ex-Felicity, Keri Russell. Mas a história até que é bacaninha. A melhor cena pra mim é quando ela pega a filha no colo pela primeira vez e finalmente muda o rumo da sua vidinha amargurada e besta. As cenas em que ela faz as tortas ficam em segundo lugar no meu ranking de preferência. As tortas são fantásticas. Queria muito as receitas dos recheios e também daquela massa que ela abre tão fácil! Mas as tortas de Waitress sairam da imaginação da atriz Adrienne Shelly, que escreveu o roteiro, interpretou a garçonete Dawn, dirigiu o filme e foi brutalmente assassinada no final de 2006. Infelizmente nunca vai rolar um livro com os segredinhos, então o jeito é tentar reinventar as receitas nós mesmos.
Algumas das tortas do filme:
Pregnant Miserable Self-Pitying Loser Pie – Lumpy oatmeal with blueberries and fruitcake mashed in. Flambé.
Earl Murders Me Cause I’m Having an Affair Pie – Smashed blackberries and cherries into a chocolate crust.
I Can’t Have No Affair Because It’s Wrong and I Don’t Want Earl to Kill Me’ Pie – Vanilla custard meringue with banana.
I Dont Want Earl’s Baby Pie – Brie & ham quiche.
I Hate my Husband Earl Pie – Bittersweet chocolate and banana.
Chocolate Mouse Falling in Love Pie – Chocolate mousse pie.
Baby Screamin Its Head Off In the Middle of The Night & Ruinin My Life Pie – No crust New York style cheesecake.
Marshmallow Mermaid Pie – Marshmallow pie.

Stranger than Fiction

O filme estava em cima da minha cômoda há mais de um mês. O babado é que eu ando completamente bitolada em filmes antigos—numa paixão especial pelos da década de trinta. E por isso Stranger than Fiction ficou acumulando empoeira por tanto tempo. Eu sou fã do Will Ferrell, não tanto quanto sou do Jim Carrey, mas quase lá. Tenho uma imensa admiração pelos atores cômicos. Acho que são eles os melhores, pois dominam a arte mais difícil, que é a de fazer rir.
Stranger than Fiction não é bem uma comédia. Aliás, não é comédia. É um filme muito bem escrito, bem dirigido e muitissimo bem interpretado, que aborda temas como a rotina, a solidão, a morte, o destino e literatura. Tudo muito bacana, não vou entrar em detalhes, pois quem já viu sabe, e quem não viu tem que ver pra saber. Mas o filme tem uma particularidade que nos remete diretamente para um papo-comida. Maggie Gyllenhaal faz a ex-aluna da Harvard Law School que abandona tudo para abrir um café e passar os dias fazendo a vida das pessoas mais feliz, com seus cookies, tortas e bolos. Ela será o objeto da paixão de Will Ferrell, o funcionário imaculável do imposto de renda, que vai fazer uma auditoria no café. Depois de tornar o dia dele miserável, ela o obriga a comer um dos seus cookies saído do forno acompanhado de um copo de leite. Para ela isso reabilita qualquer um de um dia ruim. Ele precisa ser forçado a comer o cookie, porque afirma não gostar deles. Conta que a mãe nunca fez nada em casa, nem bolo, nem cookies, ela realmente nunca cozinhou. Um cookie industrializado não é a mesma coisa que um feito em casa, ela provou o seu ponto.

cookies.jpg

Ele aparece de repente na frente do café, quando ela já está fechando e indo pra casa. Trouxe um presente pra ela, pra retribuir o cookie e também para se declarar de uma maneira bem incomum—I want you!. O presente, vários sacos de farinha. Ele diz I brought you flours, mas se não olharmos para a caixa cheia de pacotinhos com fitas crepes coloridas marcando o tipo das farinhas, podemos nos confundir poeticamente com o som similar das palavras e ouvir ele dizer I brought you flowers.

flours2.jpg
flours.jpg

O café da personagem de Maggie tem uma clientela eclética. Entre os assíduos, um maluquete. Já repararou como em todo café tem sempre um tipo maluquete que é frequentador assíduo? O Garrett, um lindo, um fofo e um amoreco que além de fazer os mais inventivos e saborosos cupcakes, ainda tem um ótimo senso de humor, escreve bem pacas e me faz rir de chorar com suas histórias, tem uma de um maluquete total, passada num café em Sacramento. A história é simplesmente hilária e poderia com certeza ser uma cena saída de um filme.
Quem já não presenciou uma cena ou outra de maluquete em cafés? Eu já vi algumas. Numa delas, há muitos anos, uma mulher bizarrissima estava em pé junto às cafeteiras, vestindo um casaco longo cor-de-rosa sujo e rasgado, com muitos anéis enormes nos dedos, óculos escuros, sombrinha e botinas de Mary Poppins, tomando o seu café numa xícara verde de cerâmica, com o mindinho empinado e rindo muito, falando alto e gesticulando sozinha. Essa foi uma visão, mas não representou realmente nenhum perigo eminente. Como o louquinho do café de Stranger than Fiction, essa era da turma dos mansos.