halibut com marmelo
[e farofa de jatobá]

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Cheguei do Brasil com vários pacotes de farinha enfiados pelos cantos da mala. Nem me preocupei em esconder nada—era farinha, não tinha nada demais e pronto! O máximo que poderia acontecer era a fiscalização da imigração confiscar e jogar tudo no lixo. Dedos cruzados. Suspense. Quando abri a mala, já em Davis, achei o bilhete da inspeção e todos os pacotinhos suspeitos intactos. Ufa!

Mas perguntará você, como acabei com essa muamba dentro da mala? Vou tirar meu corpo fora numa ginga malandra e apontar meu dedão para a verdadeira culpada —-> Maria Rê. Ela que chegou no nosso almoço lá no restaurante Lá da Venda com uma caixinha linda recheada de pacotinhos com as mais fantásticas farinhas! Um presente maravilhoso, daqueles que são uma surpresa muito boa de receber.

Pois então cheguei na maior animação para usar aquelas preciosidades brasileiras. Submersa na água da piscina, dando minhas braçadas no sábado pela manhã, tive a epifânia. Tinha comprado um filézão de halibut e lindos marmelos no Farmers Market. Juntei um com dois e num refratário fiz uma cama de marmelo descascado e ralado fininho, o peixe temperado com limão, sal e pimenta foi colocado por cima, muitos minutos de forno médio coberto com papel alumínio e na hora de servir preparei uma farofinha com uma das farinhas pra colocar por cima do peixe.

Escolhi a farinha de jatobá. Uma fruta que nem todo mundo conhece, mas que eu conheço mais do que ninguém, porque costumava colhê-las numa árvore que ficava na praça da igreja matriz da minha cidade natal e comê-las lambendo os beiços. Ela é uma farinha bem sedosa e não ficou crocante como eu gostaria. Mas quem se importou? Achei que ficou deliciosa. Apenas derreti um pouquinho de manteiga numa frigideira, juntei a farinha, uma pitada de sal, fritei mexendo com uma colher de pau por uns minutos e no final acrescentei um punhadinho de ciboulettes picadinha.

a salada clássica de outono

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Duas abóboras pequenas me esperavam na bancada da cozinha. Na geladeira, cebolas roxas. No Farmers Market, abundância de folhas verdes, incluíndo a minha favorita—rúcula. Essa salada é pra mim a cara do outono e repito sempre, com variações aqui e ali. Sempre asso a abóbora, pois acho muito mais fácil, prático e saboroso. Só tempero os cubinhos com um fio de azeite e sal. Desta vez acrescentei folhinhas de tomilho fresco. Asso por 40 minutos em forno 400ºF/ 205ºC. A cebola roxa eu corto finérrima com o mandoline [cuidado!] e deixo de molho na água gelada misturada com vinagre de vinho. Isso tira um pouco a ardência e deixa a cebola suave e adocicada. Tostei um punhado de nozes na frigideira e coloquei outro punhado de berberis secas [zereshk] de molho na água para elas amolecerem um pouco. Essas frutinhas secas podem ser encontradas em mercadinhos internacionais.

Monte a salada:
[folhas de rúcula, rodelas de cebola roxa, nozes, cubos de abóbora assados, zereshk]
E tempere com um vinagrete preparado com suco de limão, óleo de nozes, sal marinho [usei Maldon], pimenta do reino e um pouco de mostarda. Bata bem com um batedor de arame até o molho ficar bem emulsificado. Tempere a salada com ele e sirva imediatamente.

uma quitanda em Sousas

Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde

No meu Farmers Market nem todos os produtores são certificados orgânicos, mas os que não são declaram não usar nenhum tipo de spray ou pesticidas e passam na triagem que permite que eles vendam seus produtos para o público. Confiança é a palavra chave.

Eu entendi que no Brasil a certificação é um troço um pouco mais complexo, que ainda não é oferecida formalmente por um orgão governamental. Isso faz da confiança algo muito mais importante. Você saber de onde vem os produtos que consome. Confiar no produtor, na fazenda, no dono da horta e dos animais.

Essa quitandinha de beira de estrada com a horta e galinhas no fundo exemplificou tudo o que eu tento explicar sobre consumo e confiança. Indo da casa da minha irmã em Sousas para a casa da minha cunhada em Joaquim Egídio, paramos nessa quitandinha no meio do caminho para nos abastecer de frutas e legumes. Quando vi a horta lá atrás, despiroquei. Me explicaram que nem tudo que é vendido lá vem da horta, alguns produtos chegam de outros cantos e nem todos são orgânicos, mas é tudo de lugares de confiança. Conversei um pouquinho com a Isabel, a mocinha que atende o público na vendinha. E depois pedi licença para entrar na horta, onde bati um papinho com a Marlene, a moça que cuida dos legumes, verduras e das galinhas. Ela me falou que não usa nada quimico, que utiliza apenas esterco, uma outra substância para equilibrar [não me lembro se ela falou cal ou cálcio], casca de ovos das galinhas e deixa o mato crescer entre os canteiros, assim os insetos não atacam as verduras. Me encantei com a simplicidade de tudo aquilo. A Marlene também me contou que da horta também saem as bananas que elas vendem na quintanda. Cheguei até o galinheiro e provoquei um alvoroço nas penosas, que provalvelmente acharam que eu iria jogar lá uns milhos pra elas. Também acabei alvoroçando os cachorros e concluí que estava causando muito forfé, resolvi me retirar. Foi o tempo da minha cunhada fazer as comprinhas. Ela e a Isabel se conhecem, trocam sempre um dedo de prosa. Ela me contou que lá também você pode encomendar uma galinha pra comer. Eles esperam o tempo natural de amadurecimento do bicho e só então matam. E uma vez por ano rola o sacrificio de um porquinho—que se você quiser para o Natal precisa encomendar com antecedência, porque é tudo feito seguindo o ciclo natural das coisas. Como tudo realmente deveria ser.

5 anos fechados
[com chave de ouro]

Festanças não são muito a minha praia. Mas eu gosto de marcar e relembrar as datas, principalmente as comemorativas. E este ano juntaram-se várias numa curta sequência. Quando me toquei que o aniversário de cinco anos do Chucrute com Salsicha estava se aproximando, nem esquentei a cachola pensando no que iria fazer para celebrar. Eu iria estar no Brasil, mais precisamente em São Paulo e com amigas blogueiras, exatamente no primeiro de novembro—o dia auspicioso em que iniciei este promitente blog.

Chucrute no Brasil Chucrute no Brasil
Chucrute no Brasil
Chucrute no Brasil Chucrute no Brasil
Chucrute no Brasil

As outras datas celebrativas que precederam brevemente o aniversário do Chucrute e que determinaram que eu entrasse num avião e mudasse de hemisfério, foram o aniversário de 80 anos do meu pai e o de 50 anos de casamento dele com a minha mãe. Toda família compareceu, tivemos festa, festão e festinha na comemoração de duas datas importantíssimas para nós. Passei uma semana e meia aproveitando a companhia de todos da família e revendo e conhecendo novos amigos. Conheci a querida blogueira Luciana Betenson que veio encontrar-se comigo em Campinas, ri muito com minha irmã e o amigão dela, o Calil, revi a Sandra, minha alma gêmea ativista dos orgânicos, bebi cházinho com bolo de azeite e alecrim feito para mim pela minha irmã, comi feijoada, galinha caipira com quirera, goiaba, pitanga, todas as bananas que pude engolfar, laranja lima, manga, pizza do Bráz, pão de queijo assado na folha de bananeira e linguiça feita em casa pela minha prendada cunhada Patrícia, comi requeijão, goiabada, doce de figo, bebi drinks sem alcool com minha mãe, ouvi meu pai falar de política, visitei a fazenda orgânica Yamaguishi com minha mãe e meu irmão, curti todos os meus sobrinhos, desde os que sobem em árvore, fazem tricô, curtem futebol, tocam música, dançam balé, me preparam deliciosos bolos, até os que adoram salada e plantam hortinha na varanda. Também convivi com todos os cachorros da família e dos amigos. Fui aos supermercados convencionais e orgânicos, hortifruti, mercearia, vendinha, padaria, açougue, peixaria.

Chucrute no Brasil
Chucrute no Brasil
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Me despedi da minha família um pouco mais cedo, para poder passar três dias em São Paulo, revendo e conhecendo amigos, experienciando um pouco da diversidade da cultura gastronômica da cidade. Fui recepcionada pela minha querida amiga Roberta, que me tratou como uma rainha—nunca vou conseguir agradecer o suficiente tanto carinho e cuidado! Com ela e o Antônio, mais minha irmã, meu cunhado e sobrinhos, comi comida mineira levinha, pastelzinho recheado com carne seca, bolinho de mandioquinha com queijo, couve refogada, caldinho de feijão e uma farofa de maracujá que nunca vou esquecer. Também com a Roberta fui encontrar com o queridíssimo Gui Bracco no restaurante Moinho de Pedra, onde também conheci a chef Tatiana Cardoso [e ganhei o livro dela autografado]. Depois passamos na chocolateria Valrhona, onde papeamos muito mais e também encontramos a Beth V. À noite brindamos os cinco anos do Chucrute informalmente num jantar encantadoramente Dadivoso na casa da Fernanda Zacchi e na companhia da Mariana Newlands, Roberta, Mr. Dadivoso e a linda cachorra Frida. No dia seguinte passamos no Lá da Venda, onde conheci a simpatica chef Heloisa Barcelar, bebi Turbaína e almoçei pastelzinho de massa de milho e picanha com purê de banana da terra na companhia da Roberta e da fofíssima Maria Rê. Passamos a tarde num papo tão bom, que nem vimos as horas passarem. À noite jantei no sofisticado restaurante Maní com as amigas Lena Gasparetto, Faby Zanelati e Daniela Fonseca. E meu último dia em São Paulo passei com a querida Neide Rigo, que me serviu suco de bacuri da Ilha do Marajó, me levou de trem para o Mercado da Lapa, onde comi açaí com banana e creme de cupuaçú, depois fomos de ônibus até o centro da cidade, onde almoçamos no restaurante Tordesilhas. Esse lugar foi para mim no mínimo, o máximo, pelo ambiente, decoração e comida especialíssima, mas também por causa da chef Mara Salles, que juntou-se à nós, na companhia da sua mãe e me ensinou sobre a abobrinha brasileira, falou um bocado de coisas legais sobre sustentabilidade e ainda nos serviu um delicioso licor de Baru. Saí do Tordesilhas encantada com o que vi, ouvi e comi e de lá segui tristemente para o aeroporto, acompanhada e guiada mais uma vez pelas queridas Roberta, Maria Rê e Neide Rigo que ficaram comigo até quase a hora do embarque.

Chucrute no Brasil Chucrute no Brasil
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Os cinco anos do Chucrute com Salsicha não teve [nem vai ter] comemoração formal, com bolo, fogos de artificio, relatos nostálgicos. Este blog é o que é, porque eu sou quem eu sou. E tudo o que fiz até hoje resultou numa rede de amizades inestimáveis, que me faz sentir privilegiada por ter tido a oportunidade de manter e estreitar esses laços. Não consegui ver e rever muitas outras gentes queridas, mas sei que não irão faltar oportunidades num futuro breve. Mais visitas virão com certeza, mas por enquando vou ficando por aqui, dando continuidade à este convercê que iniciei há cinco anos e que parece estar bem longe de se encerrar.

[»todas as fotos tiradas com meu companheiro de viagem iPhone4; a foto com a Mara Salles e a abobrinha é de autoria da Neide Rigo.]