[comida carinho cuidado aconchego]

Fui uma criança super ativa e saudável. Tirando as várias camadas de casca de feridas sempre infeccionadas no joelho, de ter que levar inúmeras injeções anti-rábicas depois de agarrar os gatos de rua e aqueles acidentes com chicletes grudado no cabelo, eu não tenho muitas lembranças de ficar realmente doente. Tive algumas gripes, uma reação alérgica depois de devorar sozinha uma dúzia de mangas, a indefectível caxumba e algumas dores de ouvidos, por causa da água acumulada vinda da piscina ou dos rios, onde eu costumeiramente nadava. Ficar na cama, com febre ou sem, já era punição suficiente pra mim, que precisava estar sempre fazendo mil coisas, arriscando o pescoço subindo nos telhados, mergulhando do alto da pedra na beira do rio ou descendo a ladeira com a bicicleta sem breque e de olhos fechados.

Por isso minhas poucas lembranças de ficar doente não são boas. E é por isso que não curto as comidas clássicas oferecidas à pessoas adoentadas. ODEIO canja de galinha com todo o poder e força que esse sentimento pode gerar. Quando minha mãe vinha com o prato de canja, eu queria morrer—ou melhor, sarar rapidinho. Também não sou nada fã da maçã, a única fruta que eu associo com doença. Das poucas vezes que fui derrubada por um febrão, nos meus delírios eu implorava por um copão de Guaraná borbulhante e gelado. Esse era o néctar dos deuses que ajudava a levantar meu corpo e minha moral e me colocar de novo caçando besouros na rua ou pulando como uma cabrita e bebendo a água da chuva das tempestades de verão.

Até hoje sou dura na queda. Fico pouquíssimo doente, comparado com o resto da população que está sempre batalhando um resfriado ou uma gripe. Os malditos vírus só me pegam em situações extremas. Mas quando eu fico doente só quero comer uma coisa: batata frita. Afasta de mim essa canja! Quero mesmo as deliciosas e reconfortantes french fries, especialmente se forem compradas com amor e atenção pelo meu marido.

Anos atrás minha mãe estava aqui me visitando e fomos juntas para Los Angeles, participar das comemorações do aniversário das minhas sobrinhas. Lá eu peguei um vírus miserável que uma delas, beijoqueira e abraçadeira tão querida, tinha pegado na escola. Voltei podre. Eu podre aqui e minha sobrinha podre lá. Foi punk. Acho que fiquei dois dias dormindo, sem conseguir comer. No terceiro dia, minha mãe preparou a comida mais deliciosa do mundo, que me fez sair da cama, sentar na mesa da cozinha e devorar tudo com o maior ânimo e prazer. O menu preparado pela minha mãe naquele dia consistia de bife a milanesa com purê de batata. Uma das melhores refeições que já comi em toda a minha vida.

15 comentários sobre “[comida carinho cuidado aconchego]”

  1. Eu tambem quase nunca fico doente mas sempre adorei as comidas que minha mãe fazia quando ficávamos doente, principalmente canja (eu adoro todas as sopas) e leite com açucar queimado! Já o Alan associa doença com chá e pão tostado com manteiga…

  2. tambem fui muito peralta qdo criança. Carrego uma marca na canela (um buraco, de frente logo)consequencia de traquinagem, merecia uns pontos, mas ninguem conseguia me segurar . Tambem adoro bife a milanesa com purê e canja de galinha pedaçuda.
    bj Fer

  3. Fer:
    Até hoje sou cheia de cicratizes. Minha mãe passava limão com açúcar nos meus joelhos de tão “escalavrados” que eram. Mordida de cachorro, foram duas.
    Agora pra te torturar um pouco: Semana passada passei por dois desses rios aí em que você nadava….e estava tão frio que eles estavam “transpirando” fumaça, uma paisagem linda de amanhecer.
    Um beijo.

  4. Fer,eu também acho maçã muito sem graça mas é das minhas frutas favoritas na confeitaria,adoro fazer bolo, strudel,assadas com farofa doce,enfim,quando elas estão temperadas,aí eu adoro,beijo!!

  5. Fer, também ODEIO canja de galinha. Aquilo me deixa ainda mais doente! Não sou muito chegada em batatas fritas, porque tenho problemas com frituras, mas ainda assim, amo bife à milaneza, mas só como o feito por minha mãe, assim como os bolinhso de chuva (AMO!!), porque se invento de fazer frituras passo mal. Mas as coisas que ela faz, nunca me atacaram o fígado.
    Adrei seu texto, tb não me lembro de ter ficado doente na infância, sinceramente, só tenho lembranças boas. 😉
    Beijos

  6. Até à adolescência eu comia uma gemada quase todos os dias. Nunca fui de ficar doente, excepto uma operação a uma hérnia quando tive 9 anos e que foi muito traumatizante. Este ano nem sequer fiquei resfreada 🙂 Puré de batata era capaz de me levantar da cama também!

  7. Fer, amei seu texto.
    Gosto de tudo que você falou, mas comidinha de mãe não tem igual e, de preferência, a mais simples possível.
    Meu joelho guarda recordação da infância também…
    Bjs.

  8. Você deveria escrever um livro de crônicas e comidas! Escreve de uma forma deliciosa e envolvente. Teu blog se tornou muito querido desde a primeira batida de olho.
    E não tem jeito de eu abrir Walden sem lembrar de você.

  9. Fer achei seu texto super genial. Ontem comecei a ler um livro “Don’t look down” é a história de um garoto inteligente, mas muito ativo quando criança, atente para este trecho: “To Steve climbing anything was second nature, whether it was trees, poles, walls, fences, steeples, or almost anything perpendicular. So he led the way up into a tree, where the boys transferred onto a roof…. acho que vc se enquadraria numa dessas naquele tempo não? rsrsrsrsrsrsrsr Bom o bife à milanesa com o purê de batata p mim é comida maravihosa, melhor do que muita coisa sofisticada!
    Abraços,

  10. Fer, eu também vivia com o joelho em casca de ferida (de tanto que eu caía). Mas, diferente de você, adoro canja de galinha, esteja ou não doente. E de bife à milanesa com purê também. Esteja ou não doente. Ou seja, sou bom garfo em qualquer circunstância. Beijos, N

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