a salada clássica de outono

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Duas abóboras pequenas me esperavam na bancada da cozinha. Na geladeira, cebolas roxas. No Farmers Market, abundância de folhas verdes, incluíndo a minha favorita—rúcula. Essa salada é pra mim a cara do outono e repito sempre, com variações aqui e ali. Sempre asso a abóbora, pois acho muito mais fácil, prático e saboroso. Só tempero os cubinhos com um fio de azeite e sal. Desta vez acrescentei folhinhas de tomilho fresco. Asso por 40 minutos em forno 400ºF/ 205ºC. A cebola roxa eu corto finérrima com o mandoline [cuidado!] e deixo de molho na água gelada misturada com vinagre de vinho. Isso tira um pouco a ardência e deixa a cebola suave e adocicada. Tostei um punhado de nozes na frigideira e coloquei outro punhado de berberis secas [zereshk] de molho na água para elas amolecerem um pouco. Essas frutinhas secas podem ser encontradas em mercadinhos internacionais.

Monte a salada:
[folhas de rúcula, rodelas de cebola roxa, nozes, cubos de abóbora assados, zereshk]
E tempere com um vinagrete preparado com suco de limão, óleo de nozes, sal marinho [usei Maldon], pimenta do reino e um pouco de mostarda. Bata bem com um batedor de arame até o molho ficar bem emulsificado. Tempere a salada com ele e sirva imediatamente.

uma quitanda em Sousas

Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde
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Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde
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Quitanda Entre Verde
Quitanda Entre Verde

No meu Farmers Market nem todos os produtores são certificados orgânicos, mas os que não são declaram não usar nenhum tipo de spray ou pesticidas e passam na triagem que permite que eles vendam seus produtos para o público. Confiança é a palavra chave.

Eu entendi que no Brasil a certificação é um troço um pouco mais complexo, que ainda não é oferecida formalmente por um orgão governamental. Isso faz da confiança algo muito mais importante. Você saber de onde vem os produtos que consome. Confiar no produtor, na fazenda, no dono da horta e dos animais.

Essa quitandinha de beira de estrada com a horta e galinhas no fundo exemplificou tudo o que eu tento explicar sobre consumo e confiança. Indo da casa da minha irmã em Sousas para a casa da minha cunhada em Joaquim Egídio, paramos nessa quitandinha no meio do caminho para nos abastecer de frutas e legumes. Quando vi a horta lá atrás, despiroquei. Me explicaram que nem tudo que é vendido lá vem da horta, alguns produtos chegam de outros cantos e nem todos são orgânicos, mas é tudo de lugares de confiança. Conversei um pouquinho com a Isabel, a mocinha que atende o público na vendinha. E depois pedi licença para entrar na horta, onde bati um papinho com a Marlene, a moça que cuida dos legumes, verduras e das galinhas. Ela me falou que não usa nada quimico, que utiliza apenas esterco, uma outra substância para equilibrar [não me lembro se ela falou cal ou cálcio], casca de ovos das galinhas e deixa o mato crescer entre os canteiros, assim os insetos não atacam as verduras. Me encantei com a simplicidade de tudo aquilo. A Marlene também me contou que da horta também saem as bananas que elas vendem na quintanda. Cheguei até o galinheiro e provoquei um alvoroço nas penosas, que provalvelmente acharam que eu iria jogar lá uns milhos pra elas. Também acabei alvoroçando os cachorros e concluí que estava causando muito forfé, resolvi me retirar. Foi o tempo da minha cunhada fazer as comprinhas. Ela e a Isabel se conhecem, trocam sempre um dedo de prosa. Ela me contou que lá também você pode encomendar uma galinha pra comer. Eles esperam o tempo natural de amadurecimento do bicho e só então matam. E uma vez por ano rola o sacrificio de um porquinho—que se você quiser para o Natal precisa encomendar com antecedência, porque é tudo feito seguindo o ciclo natural das coisas. Como tudo realmente deveria ser.

5 anos fechados
[com chave de ouro]

Festanças não são muito a minha praia. Mas eu gosto de marcar e relembrar as datas, principalmente as comemorativas. E este ano juntaram-se várias numa curta sequência. Quando me toquei que o aniversário de cinco anos do Chucrute com Salsicha estava se aproximando, nem esquentei a cachola pensando no que iria fazer para celebrar. Eu iria estar no Brasil, mais precisamente em São Paulo e com amigas blogueiras, exatamente no primeiro de novembro—o dia auspicioso em que iniciei este promitente blog.

Chucrute no Brasil Chucrute no Brasil
Chucrute no Brasil
Chucrute no Brasil Chucrute no Brasil
Chucrute no Brasil

As outras datas celebrativas que precederam brevemente o aniversário do Chucrute e que determinaram que eu entrasse num avião e mudasse de hemisfério, foram o aniversário de 80 anos do meu pai e o de 50 anos de casamento dele com a minha mãe. Toda família compareceu, tivemos festa, festão e festinha na comemoração de duas datas importantíssimas para nós. Passei uma semana e meia aproveitando a companhia de todos da família e revendo e conhecendo novos amigos. Conheci a querida blogueira Luciana Betenson que veio encontrar-se comigo em Campinas, ri muito com minha irmã e o amigão dela, o Calil, revi a Sandra, minha alma gêmea ativista dos orgânicos, bebi cházinho com bolo de azeite e alecrim feito para mim pela minha irmã, comi feijoada, galinha caipira com quirera, goiaba, pitanga, todas as bananas que pude engolfar, laranja lima, manga, pizza do Bráz, pão de queijo assado na folha de bananeira e linguiça feita em casa pela minha prendada cunhada Patrícia, comi requeijão, goiabada, doce de figo, bebi drinks sem alcool com minha mãe, ouvi meu pai falar de política, visitei a fazenda orgânica Yamaguishi com minha mãe e meu irmão, curti todos os meus sobrinhos, desde os que sobem em árvore, fazem tricô, curtem futebol, tocam música, dançam balé, me preparam deliciosos bolos, até os que adoram salada e plantam hortinha na varanda. Também convivi com todos os cachorros da família e dos amigos. Fui aos supermercados convencionais e orgânicos, hortifruti, mercearia, vendinha, padaria, açougue, peixaria.

Chucrute no Brasil
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Me despedi da minha família um pouco mais cedo, para poder passar três dias em São Paulo, revendo e conhecendo amigos, experienciando um pouco da diversidade da cultura gastronômica da cidade. Fui recepcionada pela minha querida amiga Roberta, que me tratou como uma rainha—nunca vou conseguir agradecer o suficiente tanto carinho e cuidado! Com ela e o Antônio, mais minha irmã, meu cunhado e sobrinhos, comi comida mineira levinha, pastelzinho recheado com carne seca, bolinho de mandioquinha com queijo, couve refogada, caldinho de feijão e uma farofa de maracujá que nunca vou esquecer. Também com a Roberta fui encontrar com o queridíssimo Gui Bracco no restaurante Moinho de Pedra, onde também conheci a chef Tatiana Cardoso [e ganhei o livro dela autografado]. Depois passamos na chocolateria Valrhona, onde papeamos muito mais e também encontramos a Beth V. À noite brindamos os cinco anos do Chucrute informalmente num jantar encantadoramente Dadivoso na casa da Fernanda Zacchi e na companhia da Mariana Newlands, Roberta, Mr. Dadivoso e a linda cachorra Frida. No dia seguinte passamos no Lá da Venda, onde conheci a simpatica chef Heloisa Barcelar, bebi Turbaína e almoçei pastelzinho de massa de milho e picanha com purê de banana da terra na companhia da Roberta e da fofíssima Maria Rê. Passamos a tarde num papo tão bom, que nem vimos as horas passarem. À noite jantei no sofisticado restaurante Maní com as amigas Lena Gasparetto, Faby Zanelati e Daniela Fonseca. E meu último dia em São Paulo passei com a querida Neide Rigo, que me serviu suco de bacuri da Ilha do Marajó, me levou de trem para o Mercado da Lapa, onde comi açaí com banana e creme de cupuaçú, depois fomos de ônibus até o centro da cidade, onde almoçamos no restaurante Tordesilhas. Esse lugar foi para mim no mínimo, o máximo, pelo ambiente, decoração e comida especialíssima, mas também por causa da chef Mara Salles, que juntou-se à nós, na companhia da sua mãe e me ensinou sobre a abobrinha brasileira, falou um bocado de coisas legais sobre sustentabilidade e ainda nos serviu um delicioso licor de Baru. Saí do Tordesilhas encantada com o que vi, ouvi e comi e de lá segui tristemente para o aeroporto, acompanhada e guiada mais uma vez pelas queridas Roberta, Maria Rê e Neide Rigo que ficaram comigo até quase a hora do embarque.

Chucrute no Brasil Chucrute no Brasil
Chucrute no Brasil Chucrute no Brasil
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Os cinco anos do Chucrute com Salsicha não teve [nem vai ter] comemoração formal, com bolo, fogos de artificio, relatos nostálgicos. Este blog é o que é, porque eu sou quem eu sou. E tudo o que fiz até hoje resultou numa rede de amizades inestimáveis, que me faz sentir privilegiada por ter tido a oportunidade de manter e estreitar esses laços. Não consegui ver e rever muitas outras gentes queridas, mas sei que não irão faltar oportunidades num futuro breve. Mais visitas virão com certeza, mas por enquando vou ficando por aqui, dando continuidade à este convercê que iniciei há cinco anos e que parece estar bem longe de se encerrar.

[»todas as fotos tiradas com meu companheiro de viagem iPhone4; a foto com a Mara Salles e a abobrinha é de autoria da Neide Rigo.]

BlogHer Food 10

E aqui estou eu novamente, com mais uma batelada de fotos, mas desta vez de qualidade super duvidosa—fotos de celular. O registro era o mais importante neste caso e foi isso que eu fiz. Nos e-mails da organização do evento BlogHer Food as instruções mandavam levar laptop, câmera, eteceterá, que eu até levei, mas sinceramente foi apenas uma carregação de peso inútil. Num acontecimento como este, a gente quer ficar alerta, prestando atenção em tudo, com as mãos razoavelmente livres. A câmera me pareceu um empecilho e portanto nem saiu da sacola, que acabou voltando rapidíssimo para o carro. Fotografei quando deu, usando o iPhone, como fizeram muitos outros participantes do evento.

Mobilidade era essencial. Eu queria ver tudo, provar tudo, participar de tudo. Só fui para o segundo dia do evento, que aconteceu no sábado 8 de outubro em San Francisco, portanto perdi muitos buxixos do primeiro dia, na sexta-feira. Mesmo assim valeu cada minuto. Uma conferência de food bloggers é basicamente imperdível. No ano passado dormi com a touca da procrastinação e entrei pelo cano. Os ingressos esgotam rapidamente, não pode ficar olhando pro horizonte, porque acaba-se comendo mosca. Neste ano fui mais esperta e garanti meu ingresso ainda em março. Valeu a pena a espera de tantos meses.

Blogher Food 10 Blogher Food 10
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Por ter escolhido manter meu blog apenas em português, me coloquei numa posição muito desvantajosa no mundo blogueiro. Apesar de viver aqui e escrever sobre a cultura e culinária daqui, realmente não consigo me enturmar completamente com os locais pelo simples fato de não escrever numa língua que todos entendem. E para o resto do mundo luso parlante, ofereço minhas receitas, textos, pensamentos e reflexões sem estar fisicamente presente e participante. Em resumo, sinto que estou entre dois mundos, num universo virtual paralelo sem pertencer completamente à lugar nenhum. Isso faz a minha interação parecer difícil em eventos, como este, pois vou chegar com o blog numa língua que ninguém entende, um blog que ninguém lê e com certeza nunca irão ler.

Mas a comunidade de food bloggers de língua inglesa é algo realmente especial. Ou são especiais as pessoas que foram pioneiras, se destacaram e hoje comandam a boiada, integrando as pessoas e dividindo conhecimento e experiência. Não conhecer quase ninguém numa conferência lotada de blogueiros vindos de todos os cantos dos EUA e ser recebida com um abraço entusiasmado pela minha amiga Elise Bauer é realmente confortante. E ela não só me recebeu, como me apresentou para o charmoso Michael Ruhlman, que coincidentemente tinha sentado ao meu lado na primeira palestra que assisti. Conheci outros blogueiros celebridades e proeminentes, outros nem tanto, alguns apenas iniciantes, outros amadores como eu, e percebi que uma grande parte deles está trabalhando duro em direção da profissionalização. É uma comunidade profundamente eclética e incrívelmente séria.

No buxixo entre palestras decidi criar coragem e me apresentar para o chef David Leite, de descendência portuguesa, que é o grande divulgador da cozinha lusitana aqui na América do Norte. Só vou dizer uma coisa—somos muito bem representados, que cara simpático, adorei muito conhecê-lo pessoalmente!

Blogher Food 10
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No meio do dia todos os congressistas se aboletaram em ônibus fretados pela organização e fomos levados ao Farmers Market do Ferry Building Market no antigo Porto de San Francisco. Para mim o passeio não me apresentou nenhuma novidade, mas pra muitos blogueiros vindos de outros estados foi um super treat. Esse mercado é o meu lugar favorito na cidade e dou uma passadinha por lá sempre que posso. O mais divertido pra mim foi estar dentro de um ônibus lotado de blogueiros e poder interagir com alguns deles.

Quanto as palestras, só consegui participar de duas: food styling com os talentosos Adam Pearson, Delores Custer e Tami Hardeman e uma palestra super emocionante com a fantástica fotógrafa Penny De Los Santos, com quem eu já tinha feito um workshop anteriormente. Não canso de ouvir a Penny falar da sua paixão, da visão orgânica que ela dá para suas fotos. Depois de conhecer o trabalho dela, tudo muda. Não tem como continuar pensando da maneira antiga.

Blogher Food 10 Blogher Food 10
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No fechamento do congresso, teve uma conversa muito legal com três blogueiros experientes, cada um com um estilo completamente diferente—Shauna James Ahern, a Gluten Free Girl, o chef Michael Ruhlman e a fofissima Molly Wizenberg do blog Orangette. Mesmo não estando tão enturmada por causa da barreira da lingua do meu blog, me senti super em casa nesse evento. Apesar de ser uma blogueira com muitos anos de experiência, continuo aprendendo todos os dias. As lições nem sempre são sobre como escrever, como fotografar, mas sim como se portar e se posicionar dentro dessa comunidade. Nunca serei uma blogueira profissional, porque não carrego essa ambição comigo. Mas tenho muito bem solidificado o meu próprio estilo, que combina minha personalidade, meus principios e minha maneira de ver o mundo. E assim me posiciono. Escrevendo em português, pra quem lê em português poder ler, sem sentir que pertenço, mas pertencendo muito mais do que eu mesma consigo admitir. No final da palestra a Shauna James Ahern citou uma frase da Virginia Woolf que pode ser o meu motto e o de muitos outros que escrevem em blogs—“we write to taste life twice, in the moment and in retrospect.”

[ se Maomé não vai até
a montanha… ]

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Desde 2007, toda quarta-feira durante primavera e outono, uma feira acontece no centro do campus da Universidade da Califórnia em Davis. É uma versão em tamanho reduzido do Farmers Market da cidade, com objetivo de servir a população de estudantes, acadêmicos e funcionários. Em especial aos estudantes, que tendem muito mais para o lado da dieta recheada de porcarias. O restaurante da universidade já mantém há muitas décadas um menu simples e nutritivo, todo feito do zero e usando produtos orgânicos vindos da fazenda do campus. Mas só isso não bastava. O East Quad Farmers Market educa e facilita o acesso aos ingredientes frescos, sazonais e orgânicos. E o pessoal compra. Toda quarta feira eu vejo gente carregando saquinhos com frutas. O mercado é bem pequeno, mas oferece uma ótima variedade de produtos. No último dei um pulo lá com meu chefe. Ele comprou uvas e eu um tanto de tomates heirloom, que viraram salada.

Hoes Down Fall Festival

hoes down fall festival
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Me diverti à beça no passeio que fizemos com nossos amigos da Unicamp na Full Belly Farm no dia do Hoes Down Harvest Festival, o festival do outono e da colheita. A Full Belly é uma fazenda orgânica localizada no Capay Valley e organiza essa festa, bastante famosa, há quase trinta anos. Além de poder conhecer a fazenda, ver o que eles produzem e como eles produzem, pode-se aprender muito com vários workshops e entender um pouco como funciona essa tal de agricultura sustentável. Mas a melhor parte dessa festa é mesmo a diversão—música, dança, comida e bebida. Nos vários palcos montados pela fazenda, tocava música ao vivo ininterruptamente e toda a comida servida era feita com ingredientes orgânicos. Desde o cachorro quente e os hambúrgueres, feitos com carne grass-fed de animais criados de maneira humanitária, até os tomates e as salsinhas das saladas, vindos das fazendas da região. Tudo uma delícia, até a cerveja orgânica da cervejaria Thirsty Bear de San Francisco e os vinhos orgânicos de vinícolas locais.

Toda energia usada na festa era solar, o lixo era todo reciclado e o orgânico compostado, um mercado vendia frutas, legumes e verduras, tinha muita atividade para entreter a criançada, muita coisa legal pra ver e fazer. Nas fotos, um pouquinho de cada coisa: as crianças ajudando a moer a maçã para fazer apple cider, a apresentação dos alunos da escola Waldorf de Davis, o galpão cujo teto estava forrado de flores secas, os produtos feitos com a lavanda orgânica desta fazenda que visitamos na primavera, centenas de abóboras para quem quisesse fazer sua própria jack-o-lantern, artesanatos com flores, lã, panos e tintas para colocar as mãos na massa, e muita coisa boa para comer e beber, incluindo os mais deliciosos e mais criativos picolés do mundo vendidos pelas meninas do Fat Face de Davis.

O festival durou dois dias e teve música e dança até tardão da noite. Quem quisesse podia acampar na fazenda. Nós fomos somente no sábado e não ficamos até o final, porque já tínhamos outro compromisso. Foi a primeira vez que participei, mas com certeza não será a última. No próximo ano estarei lá novamente—nem dúvide, pois já marquei na agenda!

mais um dia, mais um ano

Fiquei um ano mais sábia na sexta-feira. E vou dizer que nem doeu. Aliás, quero deixar registrado que doi cada vez menos, porque é assim que tem que ser. Idade é maturidade. cravo vaso azulSe não for assim é porque alguma coisa está muito errada. Me importo sim, às vezes, de não ter mais a pele tão fresca, de ter minhas marcas, dos cabelitos brancos ali na testa insistindo em ficar aparecidos, de não ser mais tão esbelta, tão energética e dos probleminhas que fatalmente aparecem. Mas não poderia estar mais feliz, com minhas chatices, minhas manias, meu apetite e meu sono, minha paciência, meu humor, minha persistência, minha resistência e, principalmente, com a minha capacidade de contar até dez, vinte, cinquenta, cento e setenta, mil.

Nunca vou esquecer de uma cena patética que protagonizei quando tinha vinte e cinco anos e choramingava minhas pitangas de imaturidade numa mesa de restaurante, rodeada por mulheres bem mais velhas do que eu. Meu rosário de reclamações centrava-se no temor absoluto pela minha iminente chegada nos TRINTA anos, o que iria com certeza me condenar à viver para sempre num calabouço de horror e tristeza. As mulheres me ouviram pacientemente, com certeza se entreolharam e reviraram os olhos, e finalmente uma delas virou-se pra mim e disse:

—você ainda não tem maturidade para entender a naturalidade de se fazer trinta anos e só vai ter essa maturidade quando fizer trinta anos.

Demorei um tempo para entender o que ela quis dizer e quando entendi fiquei com uma cara de tacho eterna, porque pá, é isso mesmo! Só vamos entender quando chegamos lá. Cheguei nos trinta e nada mudou, o mesmo valeu para os quarenta. E parece que cada vez fica mais fácil e mais tranquilo—the zen art of getting old.

gelatina de uva branca
[com uva negra assada]

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Minha preguiça de cozinhar só não tem sido maior do que a minha preguiça de escrever. Tenho certeza absoluta de que estou precisando de férias, daquelas pra não se fazer absolutamente nada, apenas comer, se divertir e dormir. A situação está tão crítica que outro dia abri uma correspondência do TripleA e deixei o booklet que eles me mandaram dobrado na página dos cruzeiros pelo Alaska. Minha vontade era pegar um navio e ficar pelo menos uma semana longe de tudo. Mas tem que ser navio, avião não vale!

Como um cruzeiro pelo Alaska está fora de cogitação neste exato momento, separo este tempinho para contar que umas semanas [meses?] atrás me deparei com umas uvas negras muito interessantes no Farmers Market. Chamadas de black maroo grapes elas são bem doces, bem escuras e tem um sumo que mancha os dedos. No dia que comprei as uvas, preparei uma receita inventada de halibut frito na manteiga queimada com molho de uva negra. Foi só queimar a manteiga, fritar o peixe, bater as uvas no liquidificador, coar, juntar à manteiga na frigideira e deixar reduzir. No final acrescentar um punhadinho das próprias uvas cortadas ao meio. Ficou realmente uma delicia e não teve sobras.

Mas o que sobrou das uvas frescas, infelizmente, encalhou. Daí que resolvi assar as frutas, pra dar um toque diferente e assim não deixar elas serem desperdiçadas. Você pode assar no forno, mas eu fiz na churrasqueira, as uvas embrulhadas numa folha de papel alumínio bem grosso e salpicadas com um pouquinho de brandy. Essas uvas assadas renderam. Acompanharam uma panna cotta básica de baunilha e depois essa gelatina de uva.

As uvas brancas vieram na cesta orgânica e estavam arriscadas a virar uva passa quando me deu um cinco minutos. Vou confessar que não sou, nunca fui lá muito fã das uvas. Para fazer a gelatina, bati as uvas brancas no liquidificador com quase nada de água, coei e medi duas xícaras. Como faltou um pouquinho de suco pra completar duas xícaras, completei com um pouco de leite [por isso essa aparência cremosa]. Uma xícara foi pra panela com um pouco de mel para adoçar e 1 colher de sopa de agar-agar. Deixei ferver, desliguei o fogo, juntei a outra xícara de suco de uva e coloquei em forminhas de gelo molhadas. O agar-agar solidifica rapidíssimo, entao em meia hora você poderá ter uma sobremesa. Servi com as uvas negras assadas. Ao invés de virarem passas, as uvas, brancas e negras estrelaram num prato salgado e em duas sobremesas. High five!