dia feijão com arroz

Não quero de jeito nenhum ficar só reclamando das segundas-feiras, porque não é justo. Mas que nesses dias eu me sinto mais desgastada, isso é verdade. Faz tempo que o Uriel vem sugerindo que eu arrume uma pessoa pra dividir a cesta orgânica, mas eu sempre respondo exaltada—mas QUEM?QUEM?QUEM? Não tenho muita paciência de sair por aí perguntando e buscando por alguém. Mas uma cesta inteira por semana para uma família de dois está se tornando um estresse. Neste momento, além das abundantes folhas verdes, muitas cenouras tomaram conta das gavetas da geladeira. E eu vivendo essa fase desânimo.

Como ainda estamos em janeiro, muitas resoluções de ano novo ainda estão na roda, sendo planejadas, administradas e colocadas em prática. Portanto, quase que meio sem querer, arrumei uma partner para dividir comigo a opulenta cesta de verduras e legumes. A Marianne chegou logo depois das cinco e meia da tarde daquela segundona, empunhando uma sacolinha de pano. Discutimos sobre algumas idéias, eu fiquei feliz pois ela aceitou levar um maço de chard e metade do brócoli romanesco, que pra mim não é apenas um legume esdrúxulo de outro planeta, mas um troço realmente dos infernos, que não sei como fazer e não gosto de comer.

—leva essas cenouras coloridas… elas são bem doces…
—okay.
—e o brócoli?
—sim, posso levar tudo.
—e esse lindo legume fractual [o monstro romanesco]?
—tem gosto do quê?
— uma mistura de brócolis com couve-flor.
—detesto couve-flor.
—okay, mas o sabor mais evidente é de brócolis.
—okay.
—e aquele repolho gigante?
—odeio repolho!
—okay.

Ficamos um tempo conversando sobre receitas, ela tentando me dar idéias de como detonar o repolhão, levou bastante coisa e combinamos de fazer um teste. Ela decidiu que precisa se alimentar melhor, embora não tenha muita paciência com cozinha. E eu preciso desesperadamente dar vazão para a imensa quantidade de legumes e verduras superdesenvolvidas que recebo toda semana. It’s a done deal.

Feliz da vida, lavei apenas metade das verduras e legumes que costumo lavar sempre. Será que esse nosso acordo vai vingar? Tomara! E mesmo sendo uma segunda-feira, precisei pensar no que fazer pro jantar. O feijão já estava cozido, só precisei temperar. Fiz um arroz vapt-vupt. Refoguei folhas de chard no azeite e depois espremi um limão por cima e salpiquei com flor de sal. Esse foi o nosso jantar, que o Gabriel também acabou levando pra casa dele—arroz, feijão e verdura, cuidadosamente ajeitados numa marmitinha de vidro.

pinot noir da Meridian

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Como eu não entendo muito de vinhos, uso a técnica do gostei-não gostei para fazer minhas escolhas. E sigo as recomendações de quem entende um pouco mais. O pai da Marianne sempre que vem nos visitar traz vinhos da vinícola Meridian que fica na região da costa central, onde ele vive. Eu gostei muitíssimo do pinot noir deles, então ele já foi pra minha lista de compras. Essa região mais para o sul da Califórnia é bem famosa por seus vinhos, apesar de não ser tão conhecida internacionalmente como o Sonoma e o Napa Valley.

a prima caipira

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Ela chegou no trem do domingo, toda arrumadinha com seu vestido de flores, sandalhinha de saltinho branca combinando com o cinto branco e a bolsa também branca, forte no penteado kanekalon e no batom cor de laranja da Colorama. Ela veio visitar as primas chiques da cidade grande e trouxe uma cestinha cheia de gostosuras preparadas pelas tias lá do interior—queijo fresco, biscoitos de manteiga, geléia de frutas, picles de legumes, pão feito em casa. Foi muito bem recebida, a festiva e querida prima caipira.

mushroom tart

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Receita ligeiramente simplificada da Everyday Food. Você vai precisar de uma caixa de massa folhada descongelada, cebola, cogumelos, folhas de espinafre e queijo de cabra.
Pré-aqueça o forno em 400ºF/ 205ºC. Estenda a massa numa assadeira forrada com papel alumínio ou papel vegetal. Com a faca, faça um risco nas lateriais da massa para formar uma borda. Com um garfo, espete o centro da massa em vários lugares. Asse por uns 15 minutos ou até ela ficar douradinha.
Faça o recheio numa frigideira robusta, aquecendo azeite e ali refogando na sequência, fatias de cebola, cogumelos cortados em pedacinhos e por último folhas de espinafre. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto.
Remova a massa do forno, coloque o recheio de cogumelos no centro e salpique com pedacinhos de queijo de cabra. Retorne ao forno por mais uns 10 minutos. Sirva imediatamente.

meu quiche lorraine

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2 ovos batidos
1 xícara de creme de leite fresco
sal e pimenta do reino moída
2/3 de xícara de queijo Jarlsberg ralado [* o original era Gruyere]
3 talos de scallion [*o original era alho poró]
8 fatias de presunto [*o original era bacon]
Azeite para refogar
Já dizia o velho ditado popular que quem não tem cão caça com gato e eu aplico muito esse principio na cozinha. Não tenho receio de substituir ou improvisar, quando a situação permite, é claro. Não tem bacon, nem alho poró, nem queijo Gruyere, mas tem presunto, tem scallions e tem queijo Jarlsberg? Não tem porque adiar a confecção de um delicioso quiche Lorraine. E ficou muito bom, viu? Comemos até a última lasca, requentada no dia seguinte.
Usei uma massa pronta para torta, dessas congeladas, feita com farinha de spelt. No azeite, refoguei os talos de scallions picadinhos numa panela. Juntei o presunto cortado em cubinhos e refoguei por uns minutos. Numa vasilha bati os ovos, juntei o creme de leite e o queijo ralado, temperei com sal e pimenta branca moída a gosto. Juntei a mistura de ovos e queijo ao presunto refogado, misturei bem e coloquei essa mistura na massa pronta. Assei em forno a 365ºF/ 165ºC até o recheio ficar dourado, por mais ou menos 30 minutos. Sirva o quiche morno ou frio.
»scallions são um tipo de cebolinha gigante, dá pra usar a parte branca como cebola e a verde como cebolinha.
»meu presunto segue a linha filosófica de qualquer outro produto animal que eu consumo: sem quimicos, sem antibióticos, sem confinamentos cruéis. aqui nos EUA está ficando fácil achar produtos animais de boa procedência, como os do Niman Ranch. procure pela certificação de “humane raised & handled” nos rótulos.

panna cotta de manga

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Isso já está virando carne de vaca, mas uma das sobremesas que fiz para o jantar da passagem do ano foi a panna cotta de baunilha, que servi com o indefectível molho de manga. Comprei tudo no exagero e sobrou ingredientes à beça. Toca eu então fazer mais panna cotta. Só pra variar um pouco, resolvi adaptar a receita da Alice Waters que uso sempre e colocar a manga junto com o creme. Felizmente aqui ninguém recusa um potinho desse creminho super delicioso e mandamos ver!

Dissolva um pacotinho de 0.25 ounces / 7 gr de gelatina em pó sem sabor em 3 colheres de sopa de creme de manga*. Reserve. Numa panela, coloque 3 xícaras de creme de leite fresco, 1 xícara de creme de manga* e 1/2 colher de sopa de pasta de baunilha. Leve ao fogo médio e esquente a mistura, mas não deixe ferver. Remova do fogo, adicione 1 xícara desse creme à mistura de gelatina e creme de manga, mexa bem, retorne o creme mais a gelatina para a panela, com o resto do creme. Mexa bem, deixe esfriar um pouco e coloque nos ramequins. Cubra e ponha na geladeira por pelo menos 6 horas.

*o creme de manga eu compro pronto na lojinha indiana e já vem doce. uma maneira de substituir é bater a manga no liquidificador ou no processador até conseguir um creme bem espesso e acrescentar mel a gosto.

iogurte com maçã caramelizada

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Fiz essa sobremesa num improviso, porque queria usar umas maçãs antes que elas começassem a enrugar. Descasquei e cortei quatro maçãs em fatias. Numa frigideira [uso sempre a minha pesadona de ferro] derreti 3 colheres de sopa de manteiga e ajeitei as fatiazinhas de maçãs ali. Deixei cozinhar, virando cada fatia no meio do processo. As maçãs ficam caramelizadas e deliciosamente amanteigadas. No final ralei um pouquinho de canela por cima das maçãs cozidas. Dai foi só colocar um pouco de iogurte com sabor de maple num potinho e deitar as fatias de maçã por cima. Essa combinação de sabores ficou excelente! Pra quem não tiver acesso ao iogurte com sabor de maple, sugiro adoçar um iogurte natural com um fio de maple syrup ou então usar um iogurte sabor de baunilha. O iogurte com sabor de maple que eu uso é o orgânico da Strauss Creamery.

macarrão com verdura & queijo feta

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A receita veio na cartinha que acompanha a cesta orgânica semanalmente. Simplesmente gostei da idéia, também porque creiam-me, continuamos recebendo pelo menos cinco tipos de folhas verdes por semana. Para fazer essa singela pasta, gastei TRÊS maços de red Russian kale, uma verdura um tanto áspera, que não figura entre as minhas favoritas. Mas no contexto ela ficou ótima. Pode usar qualquer outra verdura, até espinafre ou mesmo rúcula. A receita pedia o penne, mas eu fiz com esse macarrãozinho de milho, que acho uma delícia.

Numa panela robusta aqueça 4 colheres de sopa de azeite. Adicione a verdura cortada fininho [a minha fica cortada meio grosseiro, mas tá valendo] e refogue bem, mexendo de vez em quando. Enquanto isso cozinhe macarrão suficiente num panelão com bastante água e sal. Quando a verdura estiver bem murcha, tempere com sal e pimenta a gosto. Torre um punhado de pinoles no forno ou na frigideira. Jogue pedaços de queijo feta na verdura cozida, depois as pinoles torradas. Escorra o macarrão e misture com a verdura. Sirva imediatamente.

sai dessa cozinha que não te pertence!

No inicio parecia que aquele cheiro chato e insistente na cozinha era resquício da fritura dos filés de frango. Mas depois de fumegar por horas um panelão cheio de cascas de laranja, cascas de mexerica, paus de canela, cravos e estrelas de anis, achando que tivesse dado cabo da fedentina, percebi que nada tinha mudado. Veio o pessoal da limpeza e mesmo podendo sentir um cheirinho deliciosamente bom pela casa, na cozinha eu ainda podia identificar claramente, camuflado sobre a nuvem de desinfetante de lavanda, aquele cheiro horrível de sei lá o que.
E todos os dias, quando eu descia as escadas em direção à cozinha e cheirava aquele cheiro, me angustiava pensando em como foi que eu tinha conseguido deixar minha cozinha assim tão fedorenta. E procurei por eventuais restos de cebola caidos acidentalmente em algum canto obscuro, ou um pé de couve por ventura podre dentro da geladeira, ou outra coisa qualquer fora de lugar. Como não achava nada, fui ficando frustrada, frustrada, frustrada….
Até que caiu a ficha e resolvi cheirar a travessa de alho que mantenho sempre em cima da pia, ao lado da geladeira. Na mesma semana que eu fiz o frango frito, chegou um alhão roxo gigante na cesta orgânica. O culpado só poderia ser o alho, veterano de outros delitos olfativos e atentados contra os odores de boa índole. Funguei, funguei e como não pude ter certeza, decidi fazer um teste. Removi a travessa de alho para a lavanderia. E o cheiro estranho na cozinha SUMIU completamente. Ou melhor, mudou de lugar. Fedia agora o outro espaço.
O responsável pelo futum misterioso era mesmo o alhão roxo e orgânico, minha gente. Agora entendi muito bem porque alho espanta até vampiro!