Thoreau fazendo pão

Foi numa viagem que fiz anos atrás, durante a minha adolescência, ao Rio de Janeiro. Eu estava num daqueles Cometões noturnos saindo de Campinas às onze horas e levava comigo o livro Walden de Henry Thoreau . Dentro do ônibus, enquanto todo mundo dormia, eu lia. Nunca consegui dormir em viagens. Sempre sofri de enjôos, ansiedade, tédio. E durante essa viagem eu li uma passagem no livro do Thoreau que me proporcionou uma pequena epifânia. Era uma cena onde ele fazia pão. Nunca me esqueci daquilo e até hoje visualizo o homem numa pequena cabana na clareira, durante o inverno, assando pães. O livro que eu carreguei comigo naquela viagem já não sei onde está. Mas eu tenho uma coleção de três volumes do Thoreau em inglês, que incluí Walden e apesar de não ter mais disposição para reler o livro, procurei frenéticamente por essa passagem, usando minha técnica pessoal de leitura ultra-rápida, scaneando as páginas com os olhos e olhando as palavras como se pulasse de quatro em quatro degraus de uma longa escada. O texto, onde Thoreau escreve sobre comida e como fazer pão está AQUI e é simplesmente magnífico!

enquanto cozinho a sopa

Eu sempre fui encanada com comer direito e natural. Passei uns quinze anos da minha vida, entre a infância e a adolescência, lutando contra um nojo que tomava conta de mim e que não me deixava comer carne, frango, peixe, ovos ou leite….. Do jeito que eu comia, praticamente obrigada pela minha desesperada mãe, nem sei como cresci e fiquei alta. E de repente, durante os últimos anos da minha adolescência, me deu o cinco minutos e eu virei natureba. Era uma saída para a minha repugnância com relação à toda comida derivada de animais. Virei uma comedora de pão, cenoura, sopa de missô e macarrão alho e óleo. Só depois de muitos anos, já mãe do Gabriel, é que fui devagarzinho voltando a comer os bifes da vida. Hoje eu como de tudo, menos coisas muito exdrúxulas é claro, mas não perdi a mania de comer natural, orgânico, evitar óleos, açúcares, ler maníacamente rótulos de qualquer produto para ver o conteúdo.

Por causa disso, toda segunda-feira eu encosto a barriga na beira da pia e fico com dor nas costas lavando verduras e legumes. Isso é coisa que só os naturebas freaks fazem aqui neste país, onde tudo é industrializado e muito mais fácil e prático, pois ninguém tem tempo de nada, muito menos de ficar lavando folhas de salada. Mas eu arranjo um tempo e faço questão de comer o máximo que puder sem aditivos químicos.

Hoje tive que fazer um sopão e vou congelar brócolis e couve-flor cozidos, porque tava acumulando tanto desses legumes dentro da geladeira que já estava dando dó. E toda semana eu jogo fora umas verduras que nem tenho mais idéias de como cozinhá-las. Esse desperdício involuntário e cheio de sentimento de culpa é a consequência de querer ter uma vida além da minha capacidade. Sem falar que além da lavação ainda tem os sustos de achar bichos estranhissímos residindo nas alfaces e repolhos. Um dia eu desisto dessa história, mas até esse dia chegar, vamos comendo nossas saladinhas, refogados e sopas com verduras e legumes fresquinhos.

O duro é meus amigos me aturarem, pois toda vez que eu sirvo alguma coisa, lá vem a frasezinha – “é orgânico!” – como se alguém desse a mínima!

africans nibble

Foi um achado: The Africa Cookbook – Tastes of a Continent – Jessica B. Harris. Eu estava querendo um livro de receitas africanas há tempos e esse cruzou o meu caminho noutro dia. Comprei! O mais fantástico desse livro é que a autora [uma african-american] conta muitas histórias gastronômicas dos países africanos, enquanto enlista centenas de receitas maravilhosas. Alguns ingredientes não vão ser facilmente encontrados por aqui, como a farinha de folhas de Baobá, mas outros devem ser perfeitamente adaptáveis. Estou no capítulo dos appetizers, que já vi que vai me dar muita água na boca!
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From the Cape to Cairo, Mombasa to Monrovia, people walk through the streets of the African continent with their hands full and their mouths moving. The may be nibbling on a simple ear of grilled corn or working their way through a paper roll filled with almonds or melon seeds, but nibblers they are. Appetizers, in the European context, are virtualy unknown in the traditional diet, but many of the street nibbles and the savory vegetable dishes can serve as appetizers in a European-style menu.
Fried Cheese [Egipt], Okra and Bean Fritters [Nigeria], Plantain Crisps [Ghana], Sardine Fritters [Algeria], Roasted Pumpkin Seeds [South Africa], Mushroom Brik [Algeria], Crabmeat Appetizer [Côte d’Ivoire], Fried Plantain [Nigeria], Coconut Crisps [all Africa]

indo ao mercado

No verão eu vou muito ao Farmers Market da minha cidade. Adoro andar pela feirinha e comprar coisas fresquinhas e diferentes. Neste último verão eu bati ponto lá duas quartas-feiras por mês, quando junto com o mercado acontece um picnic público, sempre com uma banda tocando. Como eu moro próximo do parque onde o mercado é montado, caminhava três quarteirões carregando a minha cesta com uma garrafa de vinho, salada e pão, e fazia um picinic com um grupo de amigos. E aos sábados ia comprar cogumelos, pães, tomates secos, frutas e alguma outra coisa que me chamasse a atenção, como os milhos amarelos. O Farmers Market de Davis só vende produtos orgâncos e locais, como quase todos os Farmer Markets da Califórnia. O mercado funciona o ano todo, primavera, verão, outono e inverno, mas é no verão que ele fica mais animado.