Todo ano eu recebo dezenas de pimentas jalapenõ na minha cesta orgânica. Algumas vezes chegam também cayenne. Eu nunca sei o que fazer com elas, por medo ou falta de idéias mesmo. Mas este ano, depois de ter provado a sopa de chili no Duarte's Tavern de Pescadero, concluí que assim não poderia ficar e decidi que este ano as pimentas vão entrar na roda e dançar um samba—ou rumba, ou conga, ou salsa.
As primeiras jalapeños que chegaram já foram pra churrasqueira, onde foram tostadas, embrulhadas em folhas de papel toalha e quando esfriaram foram despeladas e abertas, as sementes removidas. Nem usei naquele dia, guardei na geladeira e fui buscar uma receita para fazer uma sopa com elas. Achei essa, que era exatamente o que eu procurava. Fiz e ficou bem interessante, não excepcional como a sopa do Duarte's, mas pelo menos fiquei feliz por ter usado minhas pimentas.
cream of roasted jalapeño soup
12 jalapeños, assadas, removido peles e sementes
1 cebola pequiena picada
1 xícara de creme de leite fresco
2 colheres de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de farinha de trigo
4 xícaras de caldo de galinha * usei de legumes
Sal a gosto
Sour cream e tortillas chips para servir * opcional
Coloque as jalapenõs, a cebola e o creme de leite no processador e bata até formar um creme. Numa panela derreta a manteiga e junte a farinha, misturando bem até ficar uma mistura bem lisa. Devagar junte o creme de pimenta, mexendo constantemente para evitar que queime. Adicione o caldo de galinha ou legumes e o sal e continue mexendo até a sopa engrossar. Reduza o fogo e deixe cozinhar por 5 minutos, mexendo sempre. Remova do fogo e sirva quente ou deixe esfriar e sirva morna ou fria, com tortillas e sour cream se quiser.
Essa receita saiu do livro Chez Panisse Café Cookbook da Alice Waters e fez parte do Menu Califórnia que foi montado a pedido do Eduardo, para ser degustado pela sua simpática confraria. Ele era originalmente um crisp de pêras, mas como no final da receita a Alice sugere que essa sobremesa pode ser feita com outras frutas, resolvi testar com o resto das nectarinas do meu quintal que sobreviveram às doações e congelamentos. Ficou excelente.
Crisp de nectarina
[serve de 4 a 6 pessoas]
Cobertura
1/2 xícara de nozes ou amêndoas *usei amêndoas
1 xícara de farinha de trigo
3 colheres de sopa de açúcar mascavo
2 colheres de sopa de açúcar branco
1/8 colher de chá de canela em pó
Uma pitada de sal
6 colheres de sopa de manteiga sem sal
Recheio
6 nectarinas maduras [mais ou menos 1 quilo], descaroçadas e cortadas em fatias
1/4 xícara de açúcar
2 colheres de sopa de farinha de trigo
Pré-aqueça o forno em 375ºF/200ºC.
Toste as nozes ou amêndoas levemente e depois pique. Numa vasilha misture a farinha, o açúcar mascavo e branco, a canela e o sal. Corte a manteiga em pedacinhos e jogue na mistura de farinha, mexendo com os dedos até obter uma farofa. Junte as nozes picadas e misture bem—essa cobertura deve ficar numa consistência firme, quando pressionada com a mão. Pode ser preparada até uma semana antes e ficar guardada na geladeira.
Coloque as fatias de nectarina numa vasilha. Adicione o açúcar. Polvilhe com a farinha e misture gentilmente com as mãos. Coloque a mistura num refratário de vidro ou cerâmica—eu usei ramequins. Com uma colher, coloque a cobertura sobre as frutas, pressionando levemente. Coloque o refratário sobre uma assadeira e leve ao forno, na grade central, e asse por 40 ou 50 minutos, até que a cobertura esteja dourada e o suco das peras tenha engrossado. Sirva morno com sorvete de baunilha ou chantilly aromatizado com Armagnac. Eu servi frio e acompanhado de um copo de leite integral orgânico, quase um creme.
Parei na frente da banca do fazendeiro e fui caminhando para o lado, olhando as cestinhas com cinco, seis, sete, oito variedades diferentes de abobrinha. Fui perguntando, qual é essa, que gosto tem, como prepara? Perguntas tolas, eu sei, porque algumas delas eu teria que comprar, não pelo sabor, nem pela possibilidade de receitas, nada. Compraria só por causa do formato, das cores. E comprei esses dois tipos: a lebanese squash e a patty pat squash versão verde escuríssimo [tem uma verde bem clarinha e a velha conhecida amarela]. Essas são bem pequenas, parecem pequenas jóias. Fiz salada com elas e o veredito é: essas abobrinhas têm gosto de abobrinha.
Estava na horta tentando arrumar alguns galhos dos tomateiros que crescem selvagem e enlouquecidamente quando dei de cara com esse baita lagartão verde! A lente macro pegou todos os micro detalhes horrorendos desse bicho, cujo nome cientifico é Manduca quinquemaculata, mas é conhecido vulgarmente como Hornworms. Eu saí correndo, deixei o bicho lá no galho, mas vou ter que monitorar pra ver se ele não vai fazer nenhum estrago, pois esse tipo de lagarta come os tomates—uma coisa impressionante, ainda mais que nem consegui identificar qual é o lado da boca e se ela tem dentes. S u p e r f r e a k !
Pegue dois tomatoes heirloom, corte em fatias grossas e tempere com uma vinagrete feita com vinagre de vinho, flor de sal, pimenta do reino moída e azeite. Antes de servir sapeque queijo de cabra em pedacinhos e folhinhas de manjericão—esses são de um minúsculo e perfumado chamado spicy bush.
Os tomates heirloom são uma categoria especial de tomates e ganham essa denominação por serem tomates que têm uma tradição. Os heirloom são frutos naturais e especiais pois nunca foram manipulados pelo homem. Eles têm polinação natural, através do vento, dos pássaros ou da replantagem das suas próprias sementes. Diferentes dos hibridos, que foram engendrados para serem uniformes, terem o mesmo aspecto e, sobretudo, serem mais resistêntes às pestes, os heirloom são espíritos livres, tomates hippies dançando descalços ao som dos tambores sobre a luz da lua. Eles nascem, crescem sem compromisso e não têm nenhuma preocupação estética de agradar, mas mesmo assim eles viram tomates lindos, justamente por não serem tomates massificados, um igual ao outro. Eles podem ficar enormes e às vezes se apresentar em formatos deveras interessantes. Os heirloom são muito comuns por aqui, eu mesma planto deles na minha horta. Os tomates gigantes que as ratazanas devoraram num verão no passado eram heirloom. Eu muitas vezes compro os tomates heirloom só por causa das suas cores e formas. Mas eles ainda têm outra vantagem sobre os tomates hibridos: são doces, suculentos, deliciosos, imbatíveis em sabor e textura. Alguns heirloom que já abafaram na passarela do Chucrute foram os rajados e os pitangas e os zebra.
Produto da bacanuda fazenda Capay, esse figo é o fino da bossa, pois além de ser um figo, ainda tem essa fachada totalmente fashionable com listas desiguais—very chic—em verde e amarelo. E a polpa avermelhada tem sabor e textura de uma geléia de figo. É como se você estivesse comendo um doce, mas é uma fruta fresca.
Quando eu chego do Farmers Market nas manhãs de sábado trazendo as flores embrulhadas em folhas de jornal na minha cestinha, é a hora mais feliz para o meu gato Roux. Ele adora as flores—cheirar, morder, comer. Tenho um grande receio de que ele vai se intoxicar um dia, porque não sou entendida em plantas e não sei o que pode ser perigoso. Mas a florista sabe que meu gato come as flores que eu compro dela e nunca me alertou contra nenhuma. Mas já aconteceu dele não dar bola pra algumas, acho que o tal instinto funciona, mesmo num gatonildinho meio pancada como o Roux. Essas ele já cheirou. Estou tentando mantê-lo afastado, para as flores durarem pelo menos um dia, mas logo eu perco o controle e ele ataca. Felicidade para ele se resume à um lindo ramalhete de flores!
Relendo um dos capítulos de Como Cozinhar um Lobo da M.F.K. Fisher, caí na gargalhada quando li essa passagem, onde ela comenta a nossa neurose em encobrir os cheiros causados durante a preparação da comida. Sendo eu uma dessas, que fica um pouco neurotizada com o cheiro de cebola frita, vesti a carapuça.
"Você pode fazer um acordo, encobrindo um cheiro com outro. Você pode fazer isso, seguindo os ensinamentos da escola Stark de Realismo, acendendo um pedaço de jornal amassado e correndo pelos cômodos da casa com o jornal esfumaçado. Você pode, mais efetivamente [e mais ajeitadamente] pingar gotas de óleo de eucalipto ou pinho numa placa de metal quente e movimentá-la pra lá e pra cá. Se voce quiser se sentir como um personagem dos irmãos James num vago momento romântico, você pode pode pingar umas gotas de óleo de lavanda numa bacia de prata cheia de água quente. E se você é alguém que eu não conheço, e mais que isso, não me importo de nunca conhecer, você pode queimar um pequeno cone de incenso. Ou você pode assar a carne, fritar as cebolas, refogar o alho no vinho tinto... e me convidar pra jantar. Eu nao me importo, realmente, mesmo que seu nariz esteja meio brilhante, contanto que você se sinta confiante e certa de que lobo ou nao lobo, sua mente é sua e seu coracão é de alguém e portanto está no lugar certo."
Fisher era uma mulher com uma prosa fina e uma língua afiada. Ela tinha uma maneira elegante, porém direta, de dar uma opinião. Mesmo sendo uma daquelas encucadas com a possibilidade do meu cabelo estar cheirando a bife frito, concordo com cada palavra desse parágrafo e reconheço o ridículo de tentarmos encobrir o efeito das nossas aventuras culinárias. Mas mesmo assim, quando eu acho que devo, fervo umas emanações com cascas de laranja ou pauzinhos de canela. E lavo o cabelo. No entanto, certamente como a Fisher, não me importo de nunca vir a conhecer pessoas que queimam incenso!
Tirei essa receita de uma dessas revistas naturebas que se pega de graça na porta dos supermercados. Parei total nos ingredientes, embora tenha dado uma adaptada. A receita original usava frango, eu troquei por camarão. Serve quatro pessoas, ou duas com sobras para o dia seguinte.
1 xícara de leite de coco
1 xícara de leite de arroz
1 1/2 xícara de suco de cenoura
1 colher de sopa de pasta de curry vermelha
2 colheres de sopa de manteiga de amendoim
Uma bandeja de camarões grandes [ umas 300gr]
1 ninho de vermicelli de arroz
1 xícara de ervilhas
1 pimentão verde ralado fininho
1 xícara de coentro ou manjericão fresco *usei coentro
1 colher de chá de shoyo ou molho de peixe *usei shoyo
Refogue o camarão rapidamente na wok com um pouquinho de óleo de canola, sal, pimenta e o pimentão raladinho. Remova e reserve. Bata no liquidificador na velocidade mais baixa o leite de coco, leite de arroz, suco de cenoura, pasta de curry vermelha e a manteiga de amendoim. Remova para uma sopeira e leve à geladeira para gelar. Enquanto isso cozinhe o vermicelli conforme instruções no pacote. Junte as ervilhas, se forem congeladas. Coe tudo para uma vasilha e reserve. Na hora de servir junte o vermicelli com as ervilhas e os camarões refogados ligeiramente com o pimentão na sopeira. Tempere com shoyo e decore com o coentro. Sirva com colher e garfo.
Outro delicioso snack japonês. Eu estou sempre lá no Kim's Market, a lojinha asiática de Davis, procurando por novidades made in japan. Adoro essas coisinhas diferentes, que os japoneses são experts em fazer.
No Gastronautas amadores da Lu Terceiro vi o link para o blog Jantarte e lá vi o link para o website do fotógrafo David Douglas Ducan, que fez muitas fotos do gênio Picasso. Eu já conhecia quase todas essas fotos, que foram publicadas inúmeras vezes, algumas delas na biografia do pintor escrita pela Arianna Huffington—Picasso, Creator & Destroyer, que eu li anos atrás. Do conjunto de fotos, essas com Pablo e Jacqueline à mesa são as mais encantadoras.
Fiz essa salada outro dia usando um melão verde. Desta vez usei o laranja. É importante que o melão esteja SUPER doce. Esses que ando recebendo na cesta orgânica—graças à benevolência dos perus selvagens, que neste ano não invadiram a fazenda para devorá-los—estão um verdadeiro mel.
Então pra fazer essa salada é só cortar um melão em cubinhos, cortar outra fruta qualquer em cubinhos também. No meu caso cortei dois pêssegos e duas nectarinas do meu quintal. Regar as frutas com o suco de um limão [amarelo] e salpicar com lascas de amêndoas tostadas. Não vai uma pitada de açúcar, nem mel, nem nenhum outro adoçante, mas fica uma salada de frutas dulcíssima, com um toque azedinho do limão e a crocância simpática das amêndoas.
Faça, que você não vai se arrepender. E as sobras, se houverem, mantém-se muito bem na geladeira, para voltarem deliciosas à mesa no dia seguinte.
É um fenômeno inexplicável. Eu não tenho nenhuma dificuldade com o ping-pong de traduções de ingredientes em portugês e inglês, com a exceção de um legume, aquele que eu nunca consigo recordar o nome em inglês por algum motivo infortunadamente obscuro: a berinjela. Sempre que vou falar dela numa conversa em inglês, empaco na gaguejação e a palavra não vem, não tem jeito, não sai. Então acabo sempre me referindo a ela como—the purple thing, até alguém dar a deixa ou eu mesma lembrar. É uma situação exacerbante, que se repete contínuamente. The purple thing—eggplant, eggplant, eggplant!!
Também conhecidas como Chinese dates - tâmaras chinesas, essas frutinhas são um enigma pra mim. Não gosto quando elas chegam como um treat na cesta orgânica, pois nunca sei o que fazer com elas Pra comê-las in natura, melhor deixá-las secar até elas ficarem bem marrons e enrugadas. O gosto e a textura das jujubes lembra um pouco a maçã.
Uma das grandes frustrações da minha carreira na cozinha é não ser boa fazendo sobremesas. Mas sou persistente, não desisto nunca e estou sempre tentando melhorar. Só que muitas vezes sinto um desânimo enorme. Quando a empreitada termina em êxito, é motivo para comemoração. Mas raramente eu celebro a boniteza do resultado. Minhas sobremesas, apesar de ficarem comíveis, nunca ficam bonitas como eu desejaria. Então fui fazer essa sobremesa linda da Deb do Smitten Kitchen e quando olhei a minha e olhei a dela, fiquei irritada com a minha total falta de jeito. Mas tudo bem, me conformei porque todo mundo que comeu a torta gostou. É uma sobremesa bem refrescante, pois é servida gelada e com a fruta fresca, só a massa que é ligeiramente assada. Ótima também porque economiza forno nos dias quentes. E deve ficar muito boa com outros tipos de frutas.
Torta de nectarina com queijo mascarpone [minha versão]
Para a massa:
37 gingersnap cookies ou outro tipo de bolachinha interessante. Eu usei umas suecas com sabor de capuccino que estavam encalhadas. São mais ou menos 9 ounces ou 250 gr ou 3 2/4 de xícaras de bolacha.
6 colheres de sopa de manteiga sem sal derretida.
Para o recheio
1 porção de 8 ounces ou 230gr de queijo mascarpone
6 ounces ou 170 gr de cream cheese em temperatura ambiente
1/4 xícara de sour cream
1/4 xícara de açúcar
1 colher de chá de raspas de casca de limão [amarelo]
1/4 colher de chá de extrato de baunilha
Para a cobertura
4 ou 5 nectarinas descaroçadas e cortadas em fatias
1/4 xícara de geléia de pêssego * eu não usei
Faça a massa: Pré-aqueça o forno em 350°F / 176ºC. No processador coloque as bolachas e moa bem. Vá acrescentando a manteiga derretida até formar uma massa bem úmida. Forre uma forma de fundo removível com essa farofa. Asse por uns 8 minutos, ou até a massa ficar mais escura e mais firme. Remova do forno e deixe esfriar completamente.
Faça o recheio: Bata todos os ingredientes vigorosamente até obter um creme bem liso. Espalhe sobre a massa já assada na forma. Leve para gelar por pelo menos 2 horas.
Faça a cobertura: Espalhe as fatias de nectarina sobre o recheio, pincele com a geléia aquecida. Sirva ou refrigere por até 6 horas.
Minha amiga foi visitar a família no Chile e me trouxe de presente essa peça feita por artesões chilenos, usando fibras naturais e técnicas ancestrais. Fiquei encantada com a proposta do projeto Artesanias de Chile, que preserva e divulga o artesanato tradicional do país. Achei a textura dessa fibra muito parecida com o nosso lindo capim dourado. Só que a chilena é bem verdinha.
Há noites em que não se cozinha nada em especial, apesar de que se cozinha muito para tentar usar ingredientes acumulados. Ontem foi uma dessas noites em que não fiz nada, mas fiz muita coisa. Primeiro o frogurt de nectarina, para usar parte das frutas que colhi e que já estão bem maduras. Depois tive que dar um jeito numa grande quantidade de tomates já virando a esquina da madureira, caminhando rapidamente para o precipício da podridão. Fiz um molho, pra guardar e usar em outros dias. E aquele super maço de manjericão—no verão é uma abundância exagerada dessa erva, os maços que eu recebo semanalmente na cesta parecem vindos diretamente da Terra dos Gigantes. Nem sempre eu consigo usar tudo. Meu truque para mantê-los frescos o mais longo possível aprendi com a Martha Helena: embrulha as folhas lavadas e ainda molhadas em papel toalha e coloca num plástico bem fechado na geladeira. Às vezes eu seco as folhas, mas se eu contar o tanto de manjericão seco que eu tenho guardado ainda de outros anos.
Fiz então um pesto, que é uma ótima maneira de usar o manjericão fresco. A idéia desse pesto pedaçudo eu peguei na revista Country Living. Achei bem legal, pois não fica aquele pesto de sempre.
No processador bata um dente de alho [mais, se gostar mais alhudo], sal grosso e queijo parmesão. Acrescente azeite a gosto, jogue as folhas de manjericão e pulse, não deixe moer. No final acrescente os pinoles torrados e dê mais uma pulsada. Não deixe moer, os pinoles devem ficar quase inteiros. Adicione mais azeite a gosto e use.
Só pra constar. Ninguém achou que eu não iria fazer, né? Não tem como deixar passar um balde de nectarinas frescas e não fazer—tchanrannnn—sorvete!
Só pra constar também que o primeiro sorvete que eu fiz, para estrear minha sorveteira, foi—tchanrannnn—de iogurte e nectarina!
Esse foi simples demais: coloque no liquidificador várias nectarinas maduras descaroçadas e cortadas ao meio, uma xícara de iogurte natural integral, néctar de agave ou mel a gosto e 1/2 colher de sopa de licor Grand Marnier. Bater tudo, colocar na sorveteira e bau.
Meus anos no Canadá foram um laboratório que me preparou para adotar um novo país. Lá eu não era imigrante, estava somente de passagem, mas mesmo assim inicialmente passei por todos os processos de adaptação necessários para me integrar a uma vida nova, com clima novo, língua nova, elementos culturais novos. Acontece com todo mundo, aconteceu comigo. O surto maior durantes todos os meus anos canadenses foi não poder lavar o banheiro. Onde está o maldito ralo?? Era a pergunta que eu não conseguia fazer calar, até aceitar o fato inexorável de que naquele país não se lava banheiro e pronto. Não foi fácil, mas todos os choques culturais que enfrentei lá me ajudaram numa adaptação mais tranquila aqui. Eu já cheguei nos EUA ajustada.
Um dos processos pelo qual passei foi o da aceitação dos novos ingredientes gastronômicos locais e o da autenticação da cultura gastronômica que eu trazia comigo. Você quer mostrar de onde veio, não só através da língua, música, costumes e comportamento, mas também através da comida.
A universidade que engoliu meu marido num programa de PhD promovia todo inicio de ano letivo sessões de orientação para os novos estudantes internacionais. Tendo participado do evento na condição de esposa do estudante internacional, percebi o quanto era importante tudo aquilo. Me inscrevi como voluntária para trabalhar nos anos seguintes. Havia posições em diversos pontos estratégicos, você podia ser guia de tours, dar palestras, ajudar na organizacão dos eventos acadêmicos ou culturais e também poderia ajudar na cozinha. Serviam-se lanchinhos para os participantes, que eram preparados e empacotados pelos voluntários da cozinha. Nem preciso dizer que a cozinha era o lugar menos atrativo, pois todos queriam voluntariar em posições mais bacanudas, demonstrando suas habilidades intelectuais e interagindo mais intensamente com o grupo de organizadores e os novos estudantes. Ser voluntário na cozinha não tinha concorrência, muito pelo contrário, nem sempre conseguíamos um número necessário de pessoas. Mas todo ano eu estava la, junto com os sempre presentes usual suspects. Era uma turma legal, com estrangeiros e nativos, que devido ao confinamento e as horas passadas juntos cortando cenouras em tiras ou tomates em rodelas, formou algumas boas amizades.
Mas o bacana desse voluntariado na cozinha era que no último dia da orientação rolava um banquete organizado por nós. Tínhamos que trazer pratos típicos de diferentes países, geralmente doados ou feitos pelos próprios voluntários. Essa era a parte que eu mais gostava, pois chegava a hora daquela gente bronzeada mostrar o seu valor, abafando com um belo e saboroso prato tradicional brasileiro. Desde o primeiro ano, a feijoada tinha sido eleita por mim o prato fino da bossa para representar o Brasil no banquete. Porque era bem típico, tinha uma história legal pra se contar se precisasse entreter a galera curiosa e era fácil de fazer em quantidade. Eu adaptava as linguiças, usava as polonesas e russas que abundavam por lá e adicionava beef jerk no lugar da carne seca. O resto eu fazia igual, feijão preto, bacon, alho, azeite, folhas de louro, panelão que cozinhava por longas horas até o caldo ficar grossão. Quando eu finalmente levava a panela de feijão para a festa era um extase coletivo. A minha feijoada era o prato mais esperado da noite, seguido pelas samosas preparadas por uma senhora indiana e que eram, sem dúvida nenhuma, as melhores que já comi na minha vida. No dia do banquete os voluntários da cozinha saiam do ostracismo do confinamento e viravam estrelas, protagonistas da festa. Vestidos com nossas roupetas mais bacanas e ostentando os nossos sorrisos mais amigáveis, servíamos os rangos internacionais, explicando fatos de cada país, tradição e ingredientes. No meu caso, quando eu me prostava em frente ao panelão segurando a concha que eu mergulhava sem parar na deliciosa feijoada, era só dizer—Brazilian black beans para provocar um excitamento geral na malta, que às vezes se recolocava novamente na fila para, timidamente, pedir para repetir. Nem sempre sobrava para os voluntários, então adotamos o hábito de separar porções individuais da feijoada antecipadamente. Claro que todo ano durante o banquete tinha sempre um ou outro que fazia aquela cara de fuínha quando eu pronunciava as palavras mágicas—Brazilian black beans. Se a cara entortava em sinal de nojo ou medo, eu já dizia sorrindo—acho que você vai se arrepender, e não vai poder voltar atrás, porque os feijões brasileiros NUNCA sobram pra contar a história!
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É praticamente uma vergonha que eu, neta de italianos, passei minha vida inteira vendo minha mãe fazer todo tipo de pasta em casa e nunca tenha feito raviolis. Mas minha amiga Alison mudou o destino da minha história, iluminando o meu caminho com um convite para fazermos raviolis juntas. Foi uma experiência enriquecedora, que eu quero com certeza repetir em casa. Fizemos um ajuntamento de idéias, ingredientes e habilidades. Eu fiz um recheio de nozes e ricota, a Alison fez outro recheio de abóbora assada e também fez a massa, com ovos das galinhas da Mary, a vizinha que também participou do evento. Os ovos fizeram toda a diferença. Nós passamos a massa na máquina numa ação conjunta, se revezando na manivela. A Alison colocou o recheio caprichadamente sobre as tiras de massa e nós nos revezamos mais uma vez no corte dos raviolis. A Mary produziu os quadradinhos mais perfeitos. Fizemos primeiro o com recheio de nozes e ricota, que foi o nosso jantar. A Alison preparou um molho rápido com azeite, alho e manjericão colhido na hora na imensa horta que ela mantém. Quando sentamos para comer, acompanhadas também da Theresa e do Allan, só ouviam-se os murmuros—hmmhmmm!
Eu levei um melão e a Mary levou blueberries e uma melancia. Ela pegou umas nectarinas na árvore carregada de frutos em frente da casa e fez, vapt-vupt, uma salada de frutas perfeita. O melão se sobressaiu, pois tive a sorte de receber um verdadeiro pingo de mel nesta semana na cesta orgânica.
Eu fui embora, já atacada pela exaustão, antes da finalização dos raviolis recheados com a abóbora assada. A Alison usou uma butternut squash da horta dela, que ela assou no forno solar. O aroma dessa abóbora assada estava impressionante. Fiquei triste de ter perdido a segunda rodada.
Meu recheio de nozes com ricota foi simplérrimo de fazer. Preparei na noite anterior, colocando no processador:
1 1/2 xícara de nozes tostadas na frigideira
1 xícara de ricota
Um punhado de salsinha
Sal marinho a gosto
Bater tudo e guardar na geladeira. Fica um recheio bem pedaçudo, com o sabor dominante e extraordinário das nozes.

