e sobrou muita comida

 

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Espero que o Natal de todos vocês tenha sido maravilhoso! O nosso foi bem simples, com poucos convidados, mas a comida ficou explêndida—tudo preparado do zero, com os melhores ingredientes locais, sazonais e orgânicos. Foi uma comilança e tanto. Acho que impressionei as visitas, não pela sofisticação da ceia, muito pelo contrário. Provei que o simples pode ser divino. Mas isso não quer dizer que não deu trabalho! Ofaaa.. Pelo menos eu não lavei nenhuma louça.

The Hidden Kitchen

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A Elise organizou a nossa visita ao The Hidden Kitchen comandados pelo casal Dennis e Mary Kercher. Eu estava muito entusiasmada para participar desse evento, que agrupou doze foodies, entre food bloggers, criticos e profissionais da gastronomia. Eu disse doze, mas minha irritante modéstia insiste em baixar esse número para onze. Não consigo ainda me considerar uma foodie e quando estou com o grupo de Sacramento, que queira ou não eu faço parte pois moro aqui e mantenho um blog, sempre fico me sentindo a prima estrangeira que chegou ontem do Cafundoquistão.
Me esforcei à beça pra chegar no horário marcado e não confirmar aquele boato absurdo e falso divulgado à torto e à direito por bocas de matildes de que brasileiro chega sempre atrasado. Estacionei meu carro na frente da charmosa casa num bairro tradicional de Sacramento, daqueles com casinhas de filmes antigos e ruas e quintais completamente tomados por árvores ancestrais. Fui recepcionada alegremente pelo casal que cozinha e recebe os amigos para um jantar caprichado. Conheci a cozinha toda equipada do Dennis e da Mary, a simpática cachorrinha Baci e recebi uma taça com um refrescante espumante rosado. Nós ficamos no pateo da casa, com um jardim lindo ao fundo e todo decorado com velas. Conversamos muito durante o jantar. É muito difícil o papo ficar chato num um grupo de doze pessoas com o mesmo interesse. Nem preciso dizer que o tema de todas as conversar da noite foi apenas um: COMIDA.
O Dennis e a Mary serviam os pratos e explicavam os detalhes. Estava tudo muito gostoso e a atmosfera estava divina. Nós levamos o vinho, que foi dividido entre todos. O vinho que abriu o jantar foi o português tinto que eu levei e que todos gostaram. Eu bebi muito moderadamente, pois sabia que teria que dirigir de volta para Davis. Mesmo assim não deixei de beber um vinho de uma vinícola biodinâmica, que estava extremamente saboroso. Durante o jantar a Elise jogava na mesa perguntas como qual a sua lembrança mais antiga de comida ou qual a iguaria mais estranha que você adora comer, mas tem vergonha de confessar. Eu, que detesto esses tipos de joguinhos grupais e tenho horror de falar para uma aglomeração de mais de três pessoas, fico um pouco tensa. Prefiro a relaxada conversa tête-à-tête com os convivas sentados ao meu lado ou na minha frente, mas mesmo essa parte não muito divertida do jantar pra mim acabou sendo interessante, pois cada um falou da sua experiência e eu falei da minha também.
Eu gostei de quase tudo que foi servido. Até o atum semi-cru, que eu temia, estava bem gostoso, pois a porção estava micro. Só não consegui comer o ratatouille, porque ele tinha um molho e uma textura que me deu um engasgo e foi servido bem na hora que todos falavam das coisas horrorendas que não conseguem comer. Eu ouvia as declarações mais bizarras e pensava em mais coisas bizarras ao mesmo tempo que visualizava o carneiro ensanguentado nos pratos de absolutamente todos os convivas—menos no meu, pois eu implorei por bem passado. Com tudo isso rolando, o ratatouille simplesmente me deu um bleargh, mas foi a única coisa.
*seared ahi sliders with sweet potato frites and mango ketchup
os canapés de ahi tuna estavam muito gostosos, porque vieram numa porção pequena. a batata-doce estava deliciosa, nem precisou do ketchup de manga.
*gorgonzola grape galette with watercress & arugula
a salada de rúcula e agrião foi temperada com meyer lemon da árvore do jardim. estava perfeita! e da maravilhosa galette não sobrou uma farofa.
*gnocchi verdi with garden fresh pesto genovese
o gnocchi foi feito com espinafre e ricotta, sem batata. estava levíssimo. comentei com a crítica de gastronomia que esse prato deu de mil no muito semelhante que eu comi num dos restaurantes italianos mais famosos e caros daqui da região e que foi uma decepção, pesado e oleoso. o do Dennis estava perfeito, com o pesto clássico feito com manjericão da horta dele.
*rosemary rack of lamb, ratatouille ala grille, corn cakes
carneiro é aquela coisa: ou você gosta, ou você não gosta. eu acho uma carne difícil, que nem sempre fica boa, eu acho muito forte e pesada. mas gostei dessa preparada pelo Dennis com alho, alecrim, confit de limão e grelhada na churrasqueira. os bolinhos de milho estavam uma delicia e o Dennis confessou que usou um pouco de gordura de pato na massa. veio acompanhado de um dos mais delicados tapenades que eu já provei.
*grappa brown sugar panna cotta with grape gelée
muito difícil uma panna cotta ficar ruim. essa, não quebrou a regra. a geléia de fruta que acompanhou o creme me lembrou alguma coisa da minha infância.
No final fomos servidos de café e licores feitos em casa—limão, morango e café. Eu já tinha provado o de limão na casa da Elise e escolhi o de morango. A essa altura eu já estava horrivelmente exausta, não só pelo dia atrapalhadíssimo que eu tive, que se iniciou cedíssimo e que teve despedidas de amigos no aeroporto, mas também pela comilança toda. Cheguei em casa tarde da noite e ainda trouxe comigo apple butter feita pela Elise e mais favas de baunilhas que o Garrett colocou furtivamente na minha bolsa. Foi uma noite memorável, com um grupo muito bacana e uma comida excepcional.

pasta? sim, pasta!

Morar numa cidade universitária me traz grandes vantagens, como poder conhecer muita gente legal de vários cantos do mundo que vêm aqui para estudar ou trabalhar. Mas por outro lado tem a desvantagem que é ter que, de vez em quando, superar a melancolia que acompanha as despedidas. Chegou a hora de dizer good bye para uma amiga muito querida, que vai fazer muita falta no meu círculo de relacionamentos. Como todos os nossos rituais de despedida incluem comida, quis fazer um almoço para ela. Eu já tinha combinado com um amigo italiano que adora cozinhar, que iríamos fazer uma macarronada. Eu estava muito curiosa para observar as técnicas dele no preparo da massa e do molho. Colocamos os nossos planos em prática.

Usamos ovos fresquíssimos, farinha de trigo orgânica, semolina e toneladas de tomates orgânicos maduríssimos. Cozinhei os tomates um dia antes e passei pela peneira para obter alguns litros de purê. No dia seguinte começamos a função cedo. Eu e a Charlene trabalhamos duro como assistentes dedicadas do comandante da cozinha, o chef Luigi. Fizemos macarrão e três tipos de molho para dezoito comensais. Aprendi muita coisa legal com esse romano, que é do nosso time de apreciadores da comida simples, feita com capricho e com ingredientes da melhor qualidade. Ele fez o macarrão bem grosso. Passou a massa umas dez vezes pela espessura um, e depois cortou em tiras de fettucini. Nunca tinha comido o macarrão grosso assim e achei muito bom. Os molhos foram feitos de uma maneira incrivelmente simples. Eu perguntava pra ele—vai pôr isso? vai pôr aquilo? E a resposta era sempre—não, o molho de tomate italiano é muito simples. Perguntei sobre o manjericão e fui aconselhada a adicionar no final do cozimento do molho, mas aconteceu que na correria das arrumações de mesa e detalhes finais das preparações, o manjericão não entrou na dança. E pra falar a verdade, nem fez falta.

Ficamos conversando em volta da mesa até as seis da tarde. Só não ficamos mais tempo porque era domingo e a segunda-feira nos aguardava impaciente e exacerbada. Foi um almoço delicioso, tanto pela comida e bebida, quanto pela companhia. Uma despedida à altura da nossa convidada especial, a amiga que vai deixar saudade.

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** fotos extras AQUI

Molho ao Sugo
Refogar duas cenouras cortadas em cubos e uma cebola picadinha num pouquinho de óleo vegetal. Pode pôr um pingo de azeite. Uma coisa que eu sempre soube sobre cebola e alho é que quando se usa a cebola, não se usa o alho e vice-versa. O Luigi só reafirmou esse ponto. Quando a cenoura estiver molinha, vai acrescentando o purê de tomate, que eu fiz fresco, usando quilos de tomates. Mas o Luigi deu a dica de misturar metade de purê de tomates frescos com metade de tomates em lata. Refogar essa mistura até o molho reduzir em 1/3 e ficar bem grosso. Acrescentar um pouco de sal grosso. Pode pôr manjericão no final, mas nós esquecemos de colocar e ninguém reparou. No final, eu acrescentei um tomate grande inteiro, picado. Segundo o Luigi, a casca do tomate dá um sabor especial ao molho. Esse molho é daqueles que não pode ser desperdiçado e exige fartura de pedaços de pão, para limpar os pratos e as panelas.

Molho de Tomate com Aliche
Nessa versão do molho de tomate, faz tudo igual ao molho ao sugo e acrescenta-se filés de aliche/achovas durante o cozimento. Como eu não tinha mais nenhuma latinha de aliche, usei uma pasta de aliche que eu às vezes uso para pôr em molho de saladas. Esse molho foi o meu favorito!

Molho de Manteiga com Sálvia
Esse molho é ridiculamente fácil. Derreta a melhor manteiga que você puder comprar numa frigideira e coloque folhas de sálvia fresca. Deixe pegar o gosto. Desligue o fogo rápido, pra manteiga não queimar. Ela deve ficar clara. Não precisa sal, pimenta, nada.

Crawdad Festival

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Fazia muitos anos que nós não íamos à um desses festivais muito comuns por aqui—do morango, do alho, da alcachofra, do jazz, da corrida do ouro, eteceterá. Motivados pelo post da Ann do Sacatomato, resolvemos nos aventurar no festival do Crawdad, um tipo de lagostin de rio, numa minúscula cidade chamada Isleton. Desorganizados e desprevenidos, fomos sem pensar em nada. Fiquei animada com a possíbilidade de ouvir música cajun a zydeco, que eu realmente gosto.
Chegamos na pequena cidade ribeirinha e já percebemos que não somos os únicos seres desorganizados do mundo, certamente há gente pior. A festança estava armada, mas a infra-estrutura deixou deveras a desejar. Primeiro foi um parto estacionar—achar onde se podia pagar pra estacionar, já que não havia a menor sinalização além dos ameaçadores no parking – tow away zone. Entramos na festa e nos misturamos a um mundaréu de gente. Embora não estivesse terrivelmente quente, não havia uma parca sombra e tivemos que comprar chapéus, pois o sol rachava inclemente as nossas cacholas. Fila pra tudo, nenhum lugar pra sentar e comer decentemente a comida de festival, que era aquela abundância de coisas pesadas e oleosas. Não quisemos arriscar comer os crawdads, porque teríamos que abrir com as mãos e chupar a carnita dos bichos ali em pé no meio da multidão. Lembrei de um filme chamado No Mercy onde a Kim Basinger e o Richard Gere fogem para um pântano em New Orleans e comem os lagostins, a única comida que puderam arrumar no esconderijo à beira do rio. Bom, se você viu o filme, sabe porque uma pessoa minimamente civilizada não pode comer um balde dessas mini-lagostas sentada no chão de uma rua entulhada de gente. Escolhemos comer um peixe frito [catfish] com batata, que estava lotada de alho. O horrore dos horrores!
A festa estava boa para quem estava lá para encher a cara e dançar. E gente enchendo a cara era o que não faltava. Muitos bikers e rock ‘n’ rollers, muitas famílias barulhentas, muita gente esbaforida, mal educada e estranha. Pra nós valeu ter ouvido um pouco da música da Louisiana, mas a hora de ir embora chegou rápido, e fomos!
Duas palavras sumarizam o tal festival: muvuca e farofa.
Uma única conclusão final: maior furada!
* todas as fotos do colorido evento AQUI. A volta para casa, no relato impagagável de como o casal barata-tonta foi parar em Nowhereland guiados pelo GPS do carro, AQUI.

uncanny

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Imaginem o primeiro Burning Man. Ou um micro-burning man. Poderia ser o evento Uncanny, organizado por estudantes do colégio de Design e Technoculture da UC Davis. Numa fazenda e vinícola orgânica próxima de Davis, o evento incluiu um pouco de tudo—performances de arte, dança, música, instalações esdrúxulas, comida orgânica, e atraiu um público bem eclético. Eu fui com os meus amigos Heloisa e Michael e prestigiamos o show de outros amigos, David e Scarlet, que tocaram e cantaram bacanérricamente. Ficamos até às nove da noite, quando o pessoal realmente começou a chegar em peso. Enquanto nós saíamos, muitos carros e pessoas em bicicletas chegavam. A entrada era uma doação e o bilhete era uma casca de noz amarrada num barbante. Felizmente eu fui de botas, porque o lugar—no meio de uma clareira, era um poeirão só!

all about egg whites

Foi tudo ótimo! Dirigir até Berkeley papeando com Elise e Garrett, conhecer a Shuna, e aprender coisas incríveis sobre ovos, que vou com certeza aplicar no meu dia-a-dia. Passamos uma tarde agradável no restaurante Poulet, ouvindo a pastry chef falar com tanto conhecimento, e fazendo na nossa frente algumas sobremesas simplesmente dos céus. Shuna Lydon é uma mulher pequena e magrinha, mas cheia de firmeza e personalidade. Perto dela me senti uma ervilha, tal a grandeza do seu talento e sabedoria. Eu absorvia tudo o que ela falava como se fosse uma esponja. Rimos e conversamos muito, no final quando saímos da cozinha e sentamos nas mesinhas do restaurante para saborear as delícias inenarráveis feitas pela chef durante a aula, conversamos muito sobre comida e principalmente sobre blogs.

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Tem um aspecto muito interessante na a minha participação no grupo de food bloggers americano. Eu não escrevo em inglês por razões que desfio sempre que encontro com alguém pela primeira vez: eu não tenho tempo pra escrever uma versão do blog em inglês; e acho que escrever em inglês vai me transformar em simplesmente mais um blog, pois acho muito difícil traduzir com exatidão a minha personalidade na escrita do português, vou perder um pouco do meu estilo, vou ficar pasteurizada, porque definitivamente meu chucrute não é sauerkraut! Mas o mais incrível disso tudo é que quando eu digo isso, os food bloggers que escrevem em inglês concordam comigo e apoiam essa minha decisão, o que não os impede de me considerar parte do grupo e de me incluir nos encontros e eventos. Me sinto super a vontade com eles, mesmo sabendo que a maioria nem consegue me ler. Pra mim isso é no mínimo, o máximo!
* menu da aula: floating islands e pavlovas leves como plumas servidas com um bolo finíssimo de baunilha, chantily sem açúcar e molho de framboesas orgânicas. a chef também fez um marshmallow maravilhoso, que derretia na boca e tinha o perfume e o sabor adocicado do néctar de agave, que ela usou no lugar do corn syrup. divino! fiquei sem palavras…
** mais fotos AQUI.