ovos caipiras

Já faz muitos anos que não compro uma caixa de ovos dessas de supermercado que custam $1,99 a dúzia [ou duas por $1,99 na promoção]. Não compro porque não acho necessário participar de um sistema baseado em crueldade para eu poder fazer uma omelete ou um bolinho vez ou outra. Compro e uso sempre os ovos da galinha feliz—fato que não preciso mencionar a cada receita que publico aqui, mas que é absoluto na minha cozinha.
Compro uma dúzia de ovos caipiras a cada duas ou três semanas, dependendo do que eu fizer na cozinha. Às vezes demoro mais pra gastar, porque não faço muita coisa levando 5 ovos e tais. No farmers market de Davis eu tinha a minha banca favorita para os ovos caipiras. E no primeiro dia no mercado de Woodland já achei minha fornecedora de ovos, de quem tenho sido cliente assídua.

Outro dia cheguei lá para comprar uma caixa e ela me disse—sinto muito, hoje só tem ovos para quem tem o nome na lista. E me explicou que nos dias muito quentes as galinhas diminuem a produção, pois é claro né minha gente, aquele bafão e você botando ovo? Elas simplesmente tiram uma folga. E a mudança da estação, com os dias amanhecendo mais tarde e anoitecendo mais cedo, também afeta a produção do galinheiro, pois donas galinhotas têm que ter o sono restaurador da beleza e nessa época dormem mais cedo e acordam mais tarde, não vão botar ovos nessas horas.

Coloquei meu nome na lista para cada duas semanas, pra ter certeza de que não ficarei totalmente sem ovos. Porque é assim que tem que ser. Nenhuma galinha é escrava e se eu quiser ovos em dias tórridos ou quando a estação faz eles ficarem mais curtos, eu é que terei que me esforçar, pagar mais e ter paciência.

Comparemos então a vida dessas galinhas que tem o direito de botar ou não botar ovos, com aquelas eternamente confinadas num cubículo iluminado noite e dia por uma luz artificial, comendo ração cheia de hormônios pra poder botar ovos dia e noite, sem nenhuma influência das leis naturais e assim suprir a demanda dos ovos com bacon e omeletes diárias pros pafúncios humanos.

Não é justo. E não é assim que precisa ser. A escolha é nossa.

quase tudo sempre igual, com algumas diferenças

É bem raro eu conseguir tirar uma foto dos meus dois gatos juntos, já que o mais velho, Misty, mantém o máximo de distância possível do mais novo, Roux. São sete anos gatos-cadeirastestemunhando o esforço do pequeno para conquistar o mais velho e sua frustração ao ser esnobado, rejeitado e grunido, nas tentativas inúteis de solidificação de uma amizade.

Agora entrou um outro animal na jogada. E eu tinha certeza que o Roux seria o primeiro a se aproximar da cachorra Boo Meringue, que tem nos visitado frequentemente. Ela é a cachorra da namorada do meu filho e aparentemente é aberta às amizades com felinos. Está vivendo numa casa com dois gatos que a esnobam e quando chegou aqui tentou se aproximar dos meus gatonildos. Para a minha surpresa, o Roux foi o que cascou fora em pinotes histéricos e assustados, e mesmo depois de inúmeras visitas, ainda não aceitou a presença ocasional da cachorra. Já o Misty não teve nenhuma reação. Talvez pelo fato dele estar surdo e não escutar o pequeno alvoroço da chegada da visitante. Mas mesmo quando ela chega bem perto dele, pra cheirar o nariz [ou o outro lado, hahaha] ele não se abala. Está sempre dormindo em algum canto e prefere as cadeiras encaixadas nas mesas, localização perfeita por impor mais dificuldades às aproximações do Roux.

Neste dia, quando o Roux sentiu a chegada da Boo, já se pirulitou e foi se esconder no andar de cima da casa. O Misty passou o tempo todo dormindo na cadeira e a Boo o resto do tempo do outro lado da mesa. Na hora da despedida dos visitantes, o Roux desceu, já pressentindo que a área estaria segura para ele circular novamente. Quando ele viu que a cachorra ainda estava na cozinha, se colocou embaixo da cadeira—o seu refugio clássico, pra onde ele corre sempre que faz algo errado ou qualquer reboliço acontece. E foi assim que eu consegui tirar uma foto dos dois gatos numa divertida proximidade: Misty na dele, dormindo e Roux na vigilia, aguardando alerta e desconfiado a partida da cachorra invasora.

um ano sem safra

Leitores antigos do Chucrute podem estar coçando o queixo e se perguntando por que eu ainda não comentei absolutamente nada sobre as colheitas de verão no meu quintal: as nectarinas e os tomates. Bom, desta vez não tivemos safra e vou explicar detalhadamente os motivos.

Este ano o Uriel resolveu podar a árvore de nectarinas, que estava com galhos muito compridos tendo que ser amparados por vigas de madeira, porque o tronco não é ainda robusto o suficiente para sustentá-los. Com a poda—que eu achei exagerada, mas ele disse ter sido necessária—perdeu-se muitas flores e com elas foram-se os frutos. As que sobraram sofreram ataques contínuos, primeiro por uma dessas doenças que danificam as folhas, depois pelos habitantes alienigenas do meu quintal. Normalmente somente os audaciosos e agressivos blue jays davam suas bicadas nas frutas, mas neste ano a invasão de criaturas famintas foi devastadora. Tivemos visitas constantes de esquilos, lebres e ratos selvagens, mandando bala em tudo que encontraram pela frente. As poucas nectarinas que sobreviveram à poda e à doença, frutificaram e cresceram para serem completamente devoradas pelos seres invasores. Eu ainda consegui ver algumas penduradas na árvore, parcialmente mordidas e depois só encontrei caroços espalhados pelo chão do quintal. O mesmo aconteceu com os dois pés de pêssegos, cujas poucas frutinhas desapareceram como num passe de mágica.

esquilo-freak

—mãos ao alto aí, mocréia! e vai passando todos os tomates pra cá, rapidinho, rapidinho, perdeu prayboy, perdeu, perdeu!

Mas o maior estrago e a maior frustração aconteceu na horta, com os tomateiros. Plantei quatro pés, compro mudas orgânicas de heirlooms e fico na maior expectativa. Este ano plantei também dois pézinhos de berinjela, uma japonesa a outra branca. Consegui colher uma berinjelinha e alguns tomatinhos pera. O resto não deu tempo nem de amadurecer. Um tomate verde que eu via ali num pé, no outro dia já não estava mais. Fui ficando realmente irritada, frustrada e desolada, pois não quero assassinar criaturas no meu quintal e não tenho tempo de ficar vigiando pra pegar meliantes no flagra. O ideal seria colocar uma tela em volta das plantas, mas não vi nenhuma possibilidade de fazer isso num espaço tão pequeno como o da a minha horta. Depois de chorar lágrimas de ódio pelos tomates sumidos e pelos tomateiros semi-destruídos, eu simplesmente desisti, joguei a toalha, deitei tudo a perder e enfurecida declarei aos berros no meio do quintal—VÃO EM FRENTE, COMAM TUDO, A HORTA FOI DOMINADA E CONQUISTADA, VOCÊS VENCERAM, FOFURAS MALDITAS!

good bye dear tomato
good bye dear tomato

Casquei fora e deixei tudo lá, matagal crescendo, tomateiros cheios de galhos quebrados, pés de berinjela destruídos, nem a menta chocolate conseguiu fazer bonito neste ano. Enquanto eu não tomar coragem pra pegar em armas, explosivos e venenos, ou a bicharada não encontrar outro quintal para se fartar, me rendo. Talvez no próximo ano eu tenha mais sorte.

foi o esquilo que me encarou

Na frente da porta de entrada para a minha sala no meu trabalho tem um arbusto que se enche de pequenas flores no verão e que no outono viram frutos ovalados com uma cor verde bem escura. Esse arbusto é um pé de feijoa, uma fruta deliciosa também conhecida como goiaba mexicana. Eu levei muito tempo para me tocar que aquelas frutinhas eram feijoas, já que elas desaparecem rapidamente por serem vilmente atacadas e devoradas ainda verdes pelos esquilos.

Voltando da minha caminhada estica-pernas das três da tarde observei uma comoção esquilanesca nas proximidades do pé de feijoa. Foi quando peguei no flagra três esquilos, que já roiam covardemente as tais frutinhas. Minha presença e cara nada amigáveis fizeram com que dois dos esquilos se pirulitassem e fossem procurar por coisinhas comestíveis na grama de outra árvore mais próxima. Mas um deles não se moveu, ficou ali plantado e me encarou. O esquilo me encarou sem piscar, nem disfarçar, não abaixou a cabeça, não vacilou. Ele simplesmente me encarou. E eu encarei de volta, enquando ele subia pelos galhos da árvore, sem nunca virar a cabeça, sempre firme me encarando. O duelo de olhares durou alguns minutos. Foi emocionante. Não sei por que, mas eu tive quase certeza de que aquele esquilo era uma esquila.