berinjelada

O verão é temporada de abundância dos tomates, milho, pimentão, abobrinha e beinjela. Nunca me falta uma boa receita para usar os tomates, mas os outros legumes às vezes me deixam prostrada, sem idéias. A berinjela é um deles. Não dá pra passar o verão inteiro fazendo pastinha de berinjela. Felizmente o Uriel adora esse legume, então qualquer jeito que eu o prepare, ele come. Eu faço moussaka e raramente um refogado estilo ratatouille.

Apesar de já estarmos oficialmente no outono, ainda estou recebendo berinjelas na cesta orgânica. Tenho então usado a churrasqueira, para grelhar tudo em fatias e guardar na geladeira. A berinjela grelhada dura bastante refrigerada e pode ser usada para pratos quentes ou frios.

Nesta semana fiz a seguinte receita [inventada]:
Cortei as berinjelas [três variedades, roxas, brancas e verdes] em rodelas grossas e deixei uns minutos de molho numa salmora de água fria.

Preparei um tempero com:
bastante azeite, sal grosso, pimenta do reino, basil seco e um pouquinho de vinho tinto.

Coloquei as fatias de berinjela na churrasqueira já bem quente e pincelei a mistura de azeite em cada uma, dois dois lados. Deixei grelhar [cuidado para não deixar queimar, a berinjela grelha bem rápido].

Retirei da churrasqueira, separei umas fatias e guardei o resto na geladeira para outro dia. Coloquei as fatias separadas numa forma refratária de cerâmica, coloquei queijo raclette [pode ser qualquer outro queijo forte, como o gruyere] em cima de cada fatia e por cima fatias de tomate. Coloquei no forno por uns minutos até o queijo derreter. Servi quente-pelando com salada verde.

Era só o que faltava!

Pois é, eu nem sou aquela cozinheira de mão cheia que faz pratos maravilhosos e saborosos. Na cozinha eu sou aquela que se esforça. Queimo comida, salgo demais, substituo quantidades e ingredientes e enfrento as consequências, me queimo, me corto e tropeço no tapete com uma forma de caramelo quente na mão…..
Não sou perfeita, não sou gourmet, não freqüento restaurantes finos, mas ADOOORO falar de comida, ler sobre comida e até timidamente arriscar pratos e receitas mas elaboradas. Minha cozinha é inventiva, no sentido que eu invento um monte de modas. Às vezes dá certo, mas nem sempre. Gosto de comer orgânico, comprar ingredientes de qualidade, sou a rainha das novidades e das gadgets inúteis.
Há tempos olho sites de culinária e outro dia pensei, por que não ter um também? Escreverei as histórias mais bizarras e diferentes, ilustradas por fotos dos meus tomates e nectarinas. Me inspirei na maravilhosa receita de Chucrute com Salsichas que achei num dos cadernos de receitas da minha mãe. Ela, tão ocupada, mas sempre antenada, me mostrou que tudo é possível e tudo é valido. Então já vou colocando o meu avental e colocando as mãos na massa!

minha cozinha

Estou lendo um livro de receitas desses cheios de histórias, onde Miss Bessie, uma negra sulista, descreve seu prendizado na cozinha da avó e da mãe. Ela fala sobre tradições da cozinha do sul com suas diferentes etnias e aromas. Ela também diz que é possível descobrir muita coisa a respeito de uma mulher, apenas observando a sua cozinha. Segundo Miss Bessie, a cozinha vai dizer mais verdades sobre uma mulher do que ela mesma se permitiria
Pensei então na minha cozinha e as verdades que ela pode revelar sobre mim. É um espaço amplo e cheio de luz. Flores na janela desnuda em frente a pia. Uma boombox sempre presente num canto, onde eu coloco cds de Jazz pra tocar enquanto cozinho. Uma estante cheia de livros, revistas, cadernos de receitas e papeladas avulsas enfiadas em sacos plásticos e porcamente organizadas em arquivos. Peças de cerâmica por todo canto. Muitas colheres e garfos de madeira. Pelo menos três garrafas de azeite sempre à mão, perto do fogão. Dois panos de prato sendo usados e uma toalha de mão. Poesia magnética minimalista na geladeira—pastilha dizendo Water, do lado que saí a água e gelo e outra dizendo Beer, onde fica o resto das comidas. Alguns postais de viagens e umas fotos dos meus sobrinhos. Gatos sempre dormindo nos tapetes, armários desorganizados, despensa com estoque de vidros de azeitonas, grão de bico, macarrão de diversos tamanhos, formatos e expessuras, lentilhas e ervilhas secas, feijões, arroz basmati e integral e latas de tomate em conserva. Gavetas terrivelmente desorganizadas, caixa de pão sempre cheia, muitas latas de biscoito italiano, cheias de biscoitos que nunca lembro de comer e que acabam ficando velhos. Garrafas de vinho branco e tinto de cozinhar. Pia sempre com louça suja. Uma chaleira vermelha com água sempre à postos em cima do fogão. Pilhas de pratos de cor beige. Vaso de flores com utensílios de cozinha, cerâmica para garrafa de vinho com inúmeras facas, muitas sem fio. Tábua enorme de madeira no meio da bancada. Vidros cheios de coisinhas. Minha cozinha é grande, mas é cheia de coisas, uma bagunça onde só eu consigo me orientar.

Comida!

Minha comida é frugal. Não tem nada de especial e não pode me tomar muito tempo, pois me condicionei a não fazer nada que leve mais de trinta minutos para ser preparado. Não vou dizer que minha comida não seja criativa – usando os legumes e verduras que eu compro da horta orgânica, ou mesmo saborosa – quando consigo não salgar muito, nem deixar queimar nada.

Mas quem vê a minha coleção de livros de cozinha com certeza pensa que eu sou aprendiz de chef ou uma sofisticada cozinheira, uma gourmet. Eu adoro livros de cozinha. Mas os coleciono muito mais por um prazer voyeur do que pelas suas qualidades práticas. Eu me inspiro nos livros, mas não cozinho baseada neles e raramente sigo uma receita ao pé da letra. Tenho uma tendência quase neurótica a mudar os ingredientes, as quantidades e depois ficar reclamando como uma ranzinza quando a receita vira uma gororoba incomível.

Pra não dizer que não uso receitas, até que andei fazendo algumas coisinhas da fantástica revista da senhora Martha Stewart, Everyday Food [que recomendo fortemente, apesar dos enroscos legais da sua criadora]. E quando me entusiasmo com um livro ou com um estilo de comida [como foi com a cozinha tailandesa], acabo seguindo algumas receitas. Mas tenho que fazer um esforço, também porque sempre falta um ingrediente ou esqueço de deixar a manteiga na temperatura ambiente ou de descongelar a carne, detalhes geralmente essenciais para o sucesso da empreitada.

Minhas aventuras na cozinha são mais divertidas do que saborosas. Como aquela inesquecível sobre a receita de chucrute com salsichas da minha mãe! Mesmo não sendo a cozinheira que gostaria de ser, continuo comprando livros, colecionando revistas e me deliciando com programas de culinária na tevê. Um dia, quem sabe, vou escrever o meu livro de receitas, que virão com certeza acompanhadas de muitas histórias.

Chucrute com Salsicha

Eu sou uma aficionada por livros e cadernos de receitas, apesar de não cozinhar tão bem quanto gostaria. Mas eu adoro tê-los e vivo a folheá-los! Especialmente se eles forem antigos, manuseados, cheios de historia.

Minha mãe tem um monte de cadernos assim. Uns são fichários, porque ela sempre foi uma mulher prática e trabalhou em banco por trinta anos. Eu adorava abrir o fichário e destacar a folha da receita que eu queria. Elas eram todas borradas de ingredientes respingados e cheiravam como a casa da minha infância. Sem falar na letra da minha mãe, que é bem definida e interessante, letra de mulher que não tem tempo, não tem saco, nem gosta de cozinha, mas quer ter todas as receitas.

Quando comprei meu primeiro computador pessoal em 1987, estava tão entusiasmada com a geringonça que resolvi que iria “passar a limpo” as receitas dos cadernos da minha mãe. Que audácia! Bom, a tarefa deu com os burros n’água por vários motivos. Um deles porque eu cato milho, o que deixa a digitação mais lenta que passo de tartaruga e a quantidade de receitas era enorme. Outro porque as receitas eram tão deliciosas, que eu digitava uma e corria pra cozinha pra preparar algo pra comer, em total desespero!

Uma dessas receitas me fez chorar de tanto rir. Eu não conseguia acreditar no que estava lendo. Minha mãe sempre trabalhou fora. Aposentou-se em 1982 e continua trabalhando até hoje. Ela é uma mulher realmente ativa e prática, uma pessoa que vai logo ao ponto. Então a receita que me fez rir muito e que eu nunca consegui esquecer estava assim:

Chucrute com Salsicha [da Maria José]
Compre o chucrute pronto e sirva com as salsichas.

Ha Ha Ha Ha! Me enche os olhos de lágrimas só de escrever isso! Essa receita é a CARA da minha mãe!!! Ha Ha Ha Ha Ha!!!!