pasta com molho de cogumelo

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Você se considera um cozinheiro intuitivo? Eu nunca tinha pensado sobre isso, antes de ler o artigo do escritor Daniel Duane publicado na edição de dezembro da revista Food & WineBecome an Intuitive Cook: Thomas Keller’s Cooking Lessons. Duane conta como começou suas incursões na cozinha, no principio fortemente amparado pela precisão das receitas escritas, com quantidades exatas, modo de fazer, todos aqueles detalhes tão preciosos para cozinheiros inseguros, como ele [e eu? e você?]. Ele conta como fez, uma por uma, todas 290 as receitas do livro Chez Panisse Vegetables, muito antes daquela moça ter o seu momento *plin* com as receitas da Julia Child. E assim ele foi passando de livro em livro, não coincidentemente todos os do Chez Panisse e ele explica no inicio do texto o por que dessa ligação com a Alice Waters.

Quando Duane ganhou da irmã o livro The French Laundry Cookbook do chefe Thomas Keller, suas experiências na cozinha foram ficando mais e mais sofisticadas. Ele começou destrinchando Bouchon, o livro com receitas clássicas francesas do chefe. E depois foi a vez do Ad Hoc at Home. Todos os livros repletos de dissertações, micro-detalhes e preciosismos. Até que Duane recebeu um telefonema de Keller, que tinha aceitado participar de uma reportagem que ele iria conduzir para uma revista, criando cinco pratos imprescindíveis e que deveriam ser dominados por qualquer um.

No encontro entre Duane e Keller, o chefe tão detalhista e preciso nos seus livros, deu uma lição de intuitividade ao escritor, mostrando com um exemplo bem bizarro, como um livro antigo e com receitas super vagas pode ajudar um cozinheiro a criar suas próprias receitas.

Quando terminei de ler o artigo, concluí que sou muito mais intuitiva do que imaginava. Um exemplo disso é a minha mania teimosa e ousada de sempre mudar algo na receita ou substituir, rearranjar, encurtar o modo de fazer e todas as decisões precipitadas que nem sempre resultam em sucesso. Mas instintivamente é um treino. Claro que eu odeio pegar uma receita sem quantidades, sem temperatura de forno e tempo de cozimento. Porque considero tudo isso um porto seguro, que me garante uma certa tranquilidade. Mas sair numa aventura também é tentador. E muitas vezes necessário. Nem posso me gabar muito, porque sou a rainha da gororoba e tenho certeza que quando uma receita não fica cem por cento boa, é porque eu mudei alguma coisa. Mas como resistir a esses impulsos?

Pra quem já é naturalmente intuitivo na cozinha, o jeito é se pinchar e aproveitar essa habilidade. E pra quem acha que não é ou que nunca vai conseguir ser, no final do artigo Thomas Keller dá a receita de como se tornar um cozinheiro intuitivo em cinco passos.

Essa receita de molho de cogumelos que eu fiz num meio de semana, quando não existe nenhuma possibilidade física ou mental de abrir livro, seguir receita, e pode ser um exemplo de como podemos ser intuitivos na cozinha, Fiz tudo sem medidas, tudo na base do olhão, mas no final deu tudo certo e ficou uma delícia.

Um monte de cogumelos [*usei chanterelle fresco]
Um pedaço de cebola picadinha
Um naco de manteiga
Um tanto de vinho branco
Um pouco de creme de leite
Um punhado de salsinha fresca
Sal e pimenta do reino moída

Cozinhe o macarrão da sua preferência numa panela com bastante água salgada borbulhante. Enquanto o macarrão cozinha, numa outra panela derreta a manteiga, frite a cebola picadinha nela, quando a cebola estiver bem murcha, junte os cogumelos cortados [não lave, só escove ou passe um paninho!] e refogue por mais uns minutos. Junte um tanto de vinho e deixe cozinhar até secar. Acrescente o creme de leite, deixe cozinhar mais um pouquinho. Desligue o fogo, tempere o molho com sal e pimenta do reino moída na hora e salpique o molho com bastante salsinha picadinha. Coe o macarrão cozido al dente e jogue no molho. Misture e sirva. Se quiser, com parmesão ralado na hora por cima.

onde colocar [tanta] coisa?

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U—foi na loja dos gatinhos hoje?
F—fui.
U—ah, comprou mais pratos! que bom, a gente TAVA MESMO precisando de mais pratos!
F—ha.. ha.. ha..

As minhas garimpagens semanais já estão começando a ficar um bocado problemáticas. Apesar de que não é só na loja dos gatinhos que eu faço a minha peregrinação. Onde quer que eu vá, estou sempre com o radar ligado para coisas interessantes, peças novas, antigas, vintage, modernas, dando preferência para as baratinhas, que vou poder usar como props de fotos no blog sem me sentir esfolada e esfaqueada financeiramente. Afinal de contas este blog é apenas hobby, eu não faço nem um tostão furado com ele, na verdade só gasto. Mas o blog é realmente apenas uma desculpa. O negócio é que garimpar por coisas de cozinha é um vício tão grande que acaba virando outro hobby, porque é muito divertido, além de prático.

O único problema é que essas garimpagens resultam numa quantidade inacreditável de cacarecos. Vejamos, eu não comecei essa prática por causa do blog. Já venho fazendo essas visitas à thrift stores, lojas de antiguidades e pontas de estoque há muitos anos. Só intensifiquei com o blog e acabei expandindo os horizontes, acrescentando lojas mais refinadas, mais especificas. E o que está acontecendo agora é que não tenho mais NENHUM MILÍMETRO de espaço em lugar nenhum da casa—nem na cozinha, que tem coisas até no teto dos armários, nem nas salas, lavanderia e garagem. E a maioria dessas coisaradas estão muito mal ajambradas em pilhas e mais pilhas, uma atrás da outra, em linhas horizontais e verticais, num caos tão absurdo, que toda vez que tiro ou coloco algo, seguro a respiração esperando um súbito desabamento.

Sem falar que não acho mais nada e não lembro que tenho outro mundo de coisas, porque não consigo mais enxergar o que está guardado na escuridão da infindável caverna. O Uriel vive sugerindo que eu doe parte dos meus pertences culinários, mas isso não vai acontecer. Amo todas as bandejas, jarras, cubucas, xícaras, copos, pratinhos e pratões. Mas antes que alguma desgraça aconteça e prateleiras despenquem, estou pensando em reorganizar tudo aquilo. E montar umas prateleiras maiores na garagem. Fazer uma espécie de central de utilitários, numa versão micro nano e modesta da fantástica área de props para fotos da musa e maga Martha S.

grapefruit grelhado
[com açúcar de canela]

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Pra mim, sobremesa com fruta bate qualquer outra coisa açúcarada, achocolatada, crocante ou cremosa. Com citros então, não preciso nem pensar. Já fiz esses grapefruit grelhados duas vezes. A receita é bem parecida com esta na versão laranja. Vai bem no café da manhã, como lanche no domingo à noite e também como sobremesa.
para 2 pessoas:
1 grapefruit ruby grande
1 colher de sopa de açúcar de canela
[1 parte canela em pó + 3 partes açúcar]
Aqueça o forno no modo broiler—se não tiver, faz no forno comum mesmo. Corte o grapefruit ao meio e com uma faca afiada separe os gomos da casca, sem remover. Faça também cortes entre os segmentos. Se você tiver colheres serradas próprias para comer grapefruit, pode pular essa parte. Coloque as duas partes da fruta num refratário, com a parte cortada para cima. Salpique com o açúcar de canela e leve ao forno por uns 15 minutos ou até a parte de cima ficar ligeiramente caramelizada. Deixe esfriar um pouco e sirva ainda morno.

tortinhas de abóbora

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Vou admitir publicamente um fato evidente e incontestávell—minha família SOFRE! Os coitados não só estão condenados a comer minhas gororobas de praxe, como também são obrigados vez ou outra a arriscar a vida provando as minhas invencionices desmedidas. Pois no Thanksgiving eu coloquei mais uma vez as minhas manguinhas de fora e fiz minha família comer uma torta de abóbora que certamente eles nunca tinham provado em lugar nenhum. Tudo porque eu quis porque quis fazer uma tradicional torta de abóbora, mas não queria que fosse aquelas mesmices de sempre. Me precipitei na invenção de moda e daí fiquei extremamente preocupada, até tremi de medo do que iria colocar na mesa do nosso jantar. Mas no final, o resultado foi positivo. A torta ficou levinha, bem comível e bem gostosa. E o melhor de tudo, ficou diferente!

para a massa
2 xícaras de pretzels moídos
6 colheres de sopa de manteiga
2 colheres de sopa de mel
para o recheio
2 xícaras de polpa de abóbora cozida ou assada
1 colher de chá de mistura de especiarias
[*eu compro a mistura pronta, mas é apenas uma mistura de canela, gengibre, pimenta da Jamaica [allspice], cravo e noz moscada, tupo em pó]
2 colheres de sopa de mel [ou mais, se quiser mais doce]

No processador de alimentos pulse os pretzels, a manteiga e o mel até conseguir uma massa grossa. Pressione a massa com os dedos nas forminhas individuais. Misture a polpa da abóbora com as especiarias e o mel e bata bem com um batedor de arame. Coloque o recheio de abóbora e leve ao forno pré-aquecido em 350ºF / 176ºC até a massa ficar dourada e o recheio mais firme. Retire do forno, deixe esfriar e decore com chantilly feito com creme de leite fresco batido e adoçado com um pouco de mel.

Leon

Leon
Leon Leon
Leon Leon
Leon
Leon Leon
Leon Leon
Leon
Leon Leon
Leon
Leon Leon
Leon

Assim que vi a Heidi Swanson comentando o livro do restaurante Leon em Londres, coloquei ele na minha wish list. Tive que aguardar um pouco, até o livro ficar disponível nos EUA. Mas valeu a espera. Quando peguei o livro nas mãos e comecei a folhear, tive uma surpresa atrás da outra. O livro é criativo e divertido, diferente do formato comum dos livros de culinária. Hoje o trend é publicar as receitas distribuídas pelas estações do ano [se bem que isso a Edna Lewis já tinha feito no seu The Taste of Country Cooking ainda na década de 70]. O livro do Leon tem uma organização não tão comum. Metade do livro descreve os ingredientes [ingleses] e como o restaurante usa cada um. A outra parte do livro tem receitas, todas publicadas sem uma organização especifica. O bacana do livro é a maneira com que eles variam na apresentação daqueles mesmos temas de sempre. Uma página se abre como se fosse um armário, outra tem envelopes com cartões informativos dentro, uma delas é descartável, e outra tem adesivos. O colorido e a miscelânea de imagens são hipnotizantes. E as receitas também são bem bacanas, mas ainda não fiz nenhuma. Eu tenho um sistema desordenado com meus livros—com alguns eu coloco receitas em prática rapidinho, já outros eu fico um tempão só folheando, lendo, curtindo. Exatamente o que estou fazendo com o do Leon.

gelado de cranberry

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As cranberries frescas não são comestíveis cruas. Elas têm que estar cozidas ou secas com açúcar para poderem ser degustadas. E não se acha cranberry fresca o ano todo. A época delas coincide com a das comemorações do Thanksgiving e Natal, que é quando elas aparecem para virar molhos e geléias. Eu fiz o meu cranberry sauce este ano, usando o método mais simples e, acredito, tradicional. É só cozinhar as frutinhas com áçúcar e laranja e voilá. O grande problema, pra mim, é sempre controlar as porções e diminuir as quantidades—simplesmente não consigo. Então lá estava eu com sobras de cranberry sauce na geladeira, quando cheguei em casa do trabalho pra almoçar e *PLIN* tive a idéia de fazer um sorvete. Misturei 1 xícara de creme de leite fresco. 1 xícara de cranberry sauce, 2 colheres de sopa de mel e 1 colher de sopa de licor Grand Marnier. Misturei tudo com um garfo e coloquei na sorveteira. Enquanto almocei a máquinha fez seu trabalho e no final eu comi a sobremesa e ainda fotografei. Nunca uma hora de almoço rendeu tanto!

bolonhesa de berinjela

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Vi a idéia em algum lugar, só não lembro onde. A única certeza que tenho é que o autor foi o Mark Bittman. Não fiz como ele fez, também porque perdi acesso à fonte [cabeção!]. Peguei só a idéia, que achei genial e amplifiquei. Fiz um molho bolonhesa sem carne, mas com a berinjela assada no lugar dela. Ficou delicioso!
Assei uma berinjela cortada em rodelas e temperada com azeite e sal no forno alto [400ºF/205ºC] até elas ficarem bem cozidas. Fui olhando e virei as fatias no meio do procedimento. Levou uns 30 minutos, mais ou menos. Geralmente eu asso um monte de coisas num dia só, aproveitando o forno ao máximo. Daí guardo na geladeira e vou usando conforme as idéias vão aparecendo. Guardo apenas por alguns dias. Faço isso com abóbora, pimentões [tiro peles e sementes antes de guardar], beterraba e berinjela, que são os que se conservam bem. Para fazer essa receita de molho bolonhesa já tinha a berinjela previamente assada.
Numa panela com um pouco de óleo fiz um refogado com cebola, salsão e cenoura cortados em quadradinhos bem pequenos. Refoguei bem até os legumes ficarem bem cozidos. Acrescentei a berinjela já assada e também cortada em quadradinhos. Refoguei mais uns minutos e juntei mais ou menos um litro de molho de tomate. Usei os inteiros em lata [o fire roasted da Muir Gleen] que bati no liquidificador e passei pela peneira. Temperei o molho com sal, pimenta do reino moída na hora e umas folhas de louro. Deixei cozinhar por bastante tempo, até o molho reduzir em 1/3 e ficar bem grosso. Servi sobre fettuccine. Na hora de servir, salpiquei com salsinha picada e queijo grana padano ralado na hora.