[nunca te vi, sempre te amei]

É possível que San Diego nunca entrasse na minha lista de cidades para visitar, caso minha amiga Brisa Carter não morasse lá. Temos conversado, conversas longas, já há muitos anos e embora estejamos separadas fisicamente por uma mera viagem de avião de uma hora de duraçao, nunca tivemos uma oportunidade de nos encontrar. Mas um dia a oportunidade finalmente apareceu, quando o Uriel me convidou para acompanhá-lo numa viagem para um congresso em San Diego. Fui sem nenhum plano ou expectativa de grandes turistagens pela cidade. Deixei tudo nas mãos da Bri.

San Diego
San Diego San Diego
San Diego
San Diego
San Diego San Diego
San Diego

Foram quatro dias de conversas contínuas. Eu visitei a cidade sim, mas fomos fazendo as coisas enquanto batíamos aquele papo bom, completando todas as histórias que tivemos preguiça de contar por escrito. Um calorão absurdo engolfou a cidade e fizemos tudo sob um bafão úmido, que nos deixou suadas, descabeladas a amarfanhadas. Quem não viu, perdeu: as duas amigas matracas de chapelão e óculos escuros, saias molhadas de ficar sentadas por horas na grama orvalhada, bebendo vinho e água e tagarelando sem parar.

Achei San Diego linda, com muitas paisagens de cartão postal, praias de areia fofa, uma delas muito especial, onde os cachorros nadam. É uma cidade espalhada, com ruas largas, calçadas imensas, pouca sombra, mas muito bem cuidada, salpicada de esculturas de artistas locais, cheia de tradição e história.

Mas eu não vou escrever sobre a cidade, nem sobre os pontos turísticos ou paisagens lindas que vi. Quero escrever sobre nosso sábado à noite com Brisa e KC e de como nos arrumamos e combinamos de ir jantar fora, num restaurante italiano escolhido à dedo pelo KC. Sentamos no quintal, na companhia dos cachorros, bebericando drinks e engrenamos num bate-papo tão confortável e divertido que esquecemos da hora. Quando percebemos, os restaurantes já tinham fechado. Ainda tentamos pegar uma pizzaria aberta, mas não conseguimos. Decidiu-se então que o KC iria fazer um macarrãozinho e rumamos comprar alguns ingredientes. Antes paramos na praia de Ocean Beach, onde me encantei pelos muitos pontos iluminados pelas fogueiras de vários grupinhos fazendo luau. É tudo super mega organizado, as fogueiras são montadas num fire pit feito de concreto e não se pode fumar na praia. Mas o melhor ainda estava por vir. Tiramos os sapatos e fomos, pisando na areia macia, até a água. Eu nunca entrei nem nadei no oceano Pacífico, porque aqui no norte da Califórnia a água é tão absurdamente congelante que mal aguento mergulhar os pés. Se a água não dá caimbra, o vento faz doer os ouvidos. Praia aqui é pra ir de cachecol e casaco e ficar só apreciando a vista. Quando a onda na Ocean Beach finalmente alcançou meus pés, mal pude acreditar que aquela água agradável que refrescou meus dedinhos era a do Pacífico. Eu poderia nadar ali sem problema, como fazia uma menininha de maiô cor-de-rosa que pulava ondinhas bem ao nosso lado, naquela noite deliciosa de verão.

San Diego
San Diego San Diego
San Diego
San Diego
San Diego San Diego
San Diego

Com os pés croquetados pela água do mar e areia da praia, fomos ao supermercado pegar uma garrafa de licor Hpnotiq e alguns tomates frescos. Logo vi que não iria dar para vestir os sapatos, mas a Bri me tranquilizou—não tem problema, vamos descalças. Não me lembro qual foi a última vez que andei descalça pela rua, porque isso deve ter acontecido há muitos, muitos, muitos, muitos anos mesmo. Fizemos nossas compras, conversando e rindo pelos corredores do supermercado, com os pés descalços e ainda meio encroquetados. De todas as coisas que vi, senti, comi, bebi, de tudo o que fizemos, esse vai ser o momento da minha viagem a San Diego que vou guardar para sempre na minha caixinha em forma de coração: andar descalça com a Brisa, depois de pisar na areia e lavar os pés na água do mar.

30 comentários sobre “[nunca te vi, sempre te amei]”

  1. Encontrei seu blog quando fiz uma busca por “aubergine” e “recipe”.
    Estive lendo e olhando as fotos por mais de quatro horas. Uma delicia, o seu blog. Como muitos e muitas, tive a maior afinidade com as suas mensagens.
    Abracos,
    Sueli
    R: seja bem-vinda, Sueli! 🙂 beijo, Fer

  2. Lindo o relato, lindas as fotos, aqui no frio, me fez sentir saudade de praia, calor e sol.
    Até o nome poético da amiga ajudou, e eu pensei na música para intitular seu post: “Eu e a Brisa”.
    Ah se a juventude que essa brisa canta
    ficasse aqui comigo mais um pouco
    eu poderia esquecer a dor
    de ser tão só pra ser um sonho
    E aí então quem sabe alguém chegasse
    buscando um sonho em forma de desejo
    felicidade então pra nós seria
    E depois que a tarde nos trouxesse a lua
    se o amor chegasse eu não resistiria
    e a madrugada acalentaria a nossa paz
    Fica, oh brisa fica pois talvez quem sabe
    o inesperado faça uma surpresa
    e traga alguém que queira te escutar
    e junto a mim queira ficar
    bem junto a mim queira ficar
    Beijos, Fer.

  3. Que delícia de texto, Fer! Dá vontade de sair descalça – com todas as conotações possíveis – pela vida afora!
    Bom tê-la de volta com esse astral superbom!

  4. Sim, estive em San Diego em 2002 e também fiquei encantada em poder ver de perto o Oceano Pacífico, mas infelizmente a água estava congelante… 🙂

  5. Lindissimo relato! Eu nao imaginava que voce nao conhecia San Diego, eu me apaixonei por completo quando fui, ha anos atras.
    seu texto foi mesmo de emocionar…
    WELCOME BACK!

  6. Fer,que encontro bacana. E que sorte terem tanta afinidade que às vezes não é o que acontece quando saímos do virtual para a realidade,voces são duas sortudas! Acho este nome(ou nick) Brisa da maior delicadeza e suavidade,como uma brisa!! beijos e bom finde para voces todos aí.

  7. fer, nem sei o que dizer. fico muito feliz por voce ter experimentado essa sensacao outra vez. e fico grata de ter partilhado e descrito de maneira tao sincera.
    um beijo
    vera

  8. oi Fer:
    que bom que vc voltou(pra animar o meu dia)!! e melhor ainda sabendo que adorou, aproveitou e curtiu seu passeio!!
    não há sensação melhor do que essa de molhar os pés na agua do mar, de sentir sua brisa, seu cheiro! pelo menos pra mim é! me faz feliz também!!
    abç

  9. Querida Fer, que lindo!!!! Obrigada, amiga, pela visita, pelo post, por me ouvir por quatro dias.. por sua delicadeza na narracao dos fatos, poesia e talento.
    Sorrisao:):)
    bjs!!!!
    (ainda com probs no computer)

  10. nem com mil anos conseguiria dizer palavras assim tão bonitas, de dentro do coração…
    ah Fer, escritora vc sempre foi viu! e junto com as belas fotos então, está completa !
    É uma delícia ler tudo o que vc escreve, me transporto, sentí até a areia entre os meus dedos dos pés…
    um beijo

  11. Nossa que passeio mais gostoso Fer!
    Adoro a Brisa, conheco ela virtualmente ja faz uns anos quando participavamos juntas de um mesmo forum de culinaria!
    Fiquei super feliz ao ler sobre seu post e sua viagem!
    Beijao!
    Ana

  12. Fernanda, só posso dizer uma coisa sobre esse post: AMEI. AMEI. AMEI. AMEI. É dificil não gostar do que você escreve, mas deixe-me ser abusada hoje e dizer que esse post superou os outros que você já escreveu aqui. A descrição dos pés na água não me fez só imaginar a cena, como quase me sentir fazendo a mesma coisa. Fernanda, você daria uma EXCELENTE ESCRITORA. Obrigado por compartilhar comigo (não só comigo, claro) essas coisas lindas que você faz e vivencia. Um grande beijo. Lilian.

  13. Fer, que relato delicioso!
    Senti vontade de tirar minhas sandálias de salto e pisar na areia até sentir a água chegando – uma das sensaçãoes que mais gosto na vida. E andar descalça? Uma coisa deliciosa, imagino a sensação de liberdade que vc teve ao entrar no supermercado sem os sapatos.
    Maravilhoso! Maravilhoso o seu post e maravilhosa deve ter sido a viagem.
    Beijos

  14. Que delícia, Fer!
    Teu relato me borou um sorrisão na cara, logo cedinho … Quero encroquetar os pés também!! rsrsr
    Um beijão!
    Welcome back!

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