croquete de carne

Volta e meia eu pego a volumosa compilação The Art of Eating e leio algumas páginas. Ler M.F.K. Fisher me põe em foco e perspectiva com relação ao mundo, quem eu sou, no que acredito. Na semana passada li um capítulo de How to Cook a Wolf, que ela escreveu durante o período da segunda grande guerra. Ela comenta sobre as carnes, que tinham virado um artigo de luxo. A escassez do produto abriu espaço para o retorno de receitas com partes mais baratas e estranhas dos animais, que nem sempre são recebidas com entusiasmo. Eu, por exemplo, tremo de pavor delas! Fisher descreve maneiras econômicas de usar os ingredientes e apesar de listar algumas receitas deveras pertubadoras—como um assado de cabeça de vitelo [tête de veau] com descrição de detalhes horripilantes da preparação dessa iguaria de filme de horror, ela dá dicas excelentes, que podemos usar no nosso dia-a-dia. Uma delas, o reaproveitamento das carnes.

Na geladeira acomodavam-se um belo pedaço de grass fed flank steak, uma porção generosa de purê da melhor batata orgânica do planeta e um refogado do fabuloso milho amarelo com azeite e ciboulettes. Guiada por M.F.K. Fisher, moí a carne no processador com algumas folhas de manjericão. Numa vasilha, misturei a carne com o purê e os grãos de milho e amassei bem para os ingredientes se incorporarem. Moldei bolinhos, passei numa mistura de leite com sal, pimenta e tomilho seco e depois rolei na farinha de pão. Fritei.

O entardecer estava imerso num bafão de 37ºC, então nem pensar em fazer nada na cozinha, assar, ferver, muito menos fritar. Eu quase não conjugo esse verbo. Aqui frituras acontecem uma vez por ano, e ontem foi o tal dia. Fritar bolinhos dentro da cozinha num dia tórrido de verão é tão nonsense quanto ligar o ar condicionado no máximo no meio do inverno. Mas eu tenho um coringa na mão para essas ocasiões: um burner elétrico que eu uso no quintal. Fritei os bolinhos lá fora e eles ficaram bem saborosos, mas não ficaram bonitos de olhar. O Uriel perguntou, ué não vai tirar foto dos bolinhos? Marido, eu respondi, você sabe que eu tenho um senso de estética bem apurado e sei quando devo poupar meus visitantes de imagens traumatizantes, né? Assim devoramamos os deliciosos bolinhos acompanhados de uma refrescante salada verde, e não se falou mais nisso.

14 comentários sobre “croquete de carne”

  1. feeer, do céu!
    Essa é a minha receita favorita de bolinhos de carne – batata+carne moída.
    Minha avó (a que já está no céu) fazia pra mim, amo de paixão, como vinte, se deixar!!!
    Brigada por me trazer essa recordação tão doce!
    Beijos.

  2. Preciso confessar que são raros os alimentos que não como, posso até não gostar do sabor, mas acabo experimentando (ovo de mil anos, insetos, larvas, timo, cérebro, rim, lingua, olhos, intestino, ervas e legumes amargos, etc).
    Sei que fritura não faz bem, mas de vez em quando eu gosto de apreciar um bolinho…bjo, Nina.

  3. Fer,
    MFK Fisher é minha autora predileta e eu vivo com o Como cozinhar um lobo aqui do lado do computador, junto com Grandes sertões, as Cidades e as Serras etc. De vez em quando dou uma bicadinha neles – principalmente quando a máquina trava. Saiba que quando eu era criança minha mãe botava na mesa uma cabeça inteira de porco assada. Adorávamos as bochechas. Adorei seu bolinho de sobras. Coincidentemente também postei o de peixe galo. Como você, não gosto de fazer frituras. Prefiro sempre cozinhar no vapor, mas de vez em quando me permito umas friturinhas. Mais que você, talvez. Umas duas vezes no ano e neste já estourei minha cota. E mais uma coincidência, meus bolinhos no vapor, cobertos com o molho de gemas ficaram horrendos – descuidei do molho que empelotou um pouco. Mas não sobrou nada. Beijos, n

  4. Ai Fer, tô tendo que diminuir a comida…aí sonhei com bolinhos de arroz, vixe maria, faz mais de 10 anos que não como ! 🙂 Até o sonho é de gorda. Esses seus bolinhos devem ter ficado uma coisa de louco ! Beijocas.

  5. Riso… O meu sentido estético tb me diz que não deveria publicar 99% das receitas que faço, pois as fotografias ficam péssimas. Mas, além da minha máquina não ser uma gd coisa, a verdade é que ainda consigo ser bem pior a fotografar do que a cozinhar…
    Aliás, quando a minha filha era pequena e não existiam as máquinas digitais, chegava a tirar-lhe duas e três fotografias seguidas para ver se, no final, conseguia aproveitar uma…

  6. Fer,
    isso acontece direto comigo tb…
    Tenho várias receitas por postar. O paladar fica muito bom, mas a estética nem tanto… Aí eu vou armazenando para, quem sabe um dia, repetir a receita ou publicá-las assim mesmo(coisa que até hoje não fiz).
    Eu adoro as suas fotos!!!
    Bjks

  7. ô Fer,agora fiquei muito curiosa para ver o tal bolinho, que maldade!
    Eu também raramente faço frituras,a circunferência abdominal agradece horrores..quando me bate a zica para comer algum bolinho escolho uma lancheria muito da boa e resolvo o assunto por ali mesmo..beijo prá ti!

  8. ai Fer deve,m ser mto gostrosos…afdorei o milho no meio da carninha com manjericão e mais batata.. e o bom é que não vai ovo…pq se somarmos a goradura do ovo com a fritura estouramos…adorei! beijos

  9. Aahhhhh…Mostra! Mostra! Mostra!
    Hehehe. Eu sou curioso.
    Vc não tirou nenhuma fotinho mesmo?
    Aposto que ficaria boa, como todas as que você tira.
    Bjos
    Diego

  10. Fer!! Este eh um dos livros que estou lendo.. peguei (e renovei) na library..Ontem mesmo comentei com o KC que, embora tenha gostado de umas passagens, outras me deixaram bored, e como vou ter que devolver sem terminar, estou debating entre comprar ou nao..hehe
    Mesmo assim, achei umas receitas interessantes, pela simplicidade.
    Bjs e otimo dia por aih!
    Bri
    PS: A plateia – eu, no caso, agradece sempre seu maravilhoso senso de estetica:))

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