Farofa a bordo

Assim que o comandante avisou que teríamos que esperar por pelo menos uma hora e meia, até os mecânicos terminarem o conserto do problema no avião, eu ouvi o barulho de desembrulhar de pacotes de papel e plástico nas cadeiras atrás de nós, onde sentava um casal de americanos. Senti cheiro de pão sendo cortado e barulhinho de vinho enchendo copos. Pensei, essa gente trouxe um farnel? Sim, trouxeram! Não olhei pra trás, é claro, mas fiquei invejando a idéia. Estamos acostumados com a falta de rango nos vôos domésticos, quando sempre garantimos comendo antes ou levando alguma coisinhas na mala de mão, mas para esse vôo internacional atravessando o Atlântico, eu só tinha trazido o básico: água, bolacha e umas barras de chocolate—o que não era nada comparado ao que eu ainda iria ver.
Eu ainda estava inebriada pelo cheiro do pão e vinho dos americanos, quando um espanhol que sentava com a esposa na fileira ao nosso lado se levantou. O fulano era uma figuraça de calça Calvin Kline e camiseta do sindicato Solidariedade. Tira coisa dali, tira coisa de lá, se vira, se revira e então eu comecei a sentir um cheiro maravilhoso de pão com queijo e presunto. Virei a cabeça e vi com meus dois olhões esbugalhados os espanhóis devorando enormes sanduiches embrulhados em papel branco. Em seguida os vi brindando com copos cheios de vinho tinto. Eu salivava de inveja. E pra completar a farra gastronômica, o espanhol começou a descascar laranjonas suculentas com um cortador de unha. Picnic completo! Levantei pra esticar as pernas e vi os americanos sentados atrás de nós guardando uma caixa de plástico com presunto cru e retirando do farnel uvas gigantonas verdes e potinhos com algum creme de sobremesa, que eles comiam com uma colherzinha descartável—gente organizadíssima! A mulher me ofereceu umas uvas, que eu recusei gentilmente por educação. Eu já tinha dado bandeira suficiente da minha dor de cotovelo por não ter tido essa idéia também.
Quando o avião finalmente decolou—quatro horas mais tarde, eu já tinha bebido toda a água, perdido todo o meu humor, estava descabelada e quase a beira de ter um dos meus ataques claustrofóbicos de avião, mas os sabidos americanos e espanhóis estavam felizões, dormindo refastelados de bucho cheio. Da próxima vez que eu fizer uma viagem internacional, vou ser esperta como esse pessoal e levar uma farofinha. Comida de avião é uma droga mesmo e pelo que eu percebi ninguém regula a entrada de comida clandestina a bordo!
* quando escrevi esse texto, em outubro de 2005, dava pra contrabandear garrafas de vinho para o avião. fosse hoje, com todas essas medidas extremas de segurança, essa turma iria ter que comer os sanduíches à seco.

7 comentários sobre “Farofa a bordo”

  1. fer, como eu ri com esse post! e me lembrei do Hannibal Lecter fazendo seu lanchinho numa de suas fugas internacionais… tinha vinho, pão e… bem… uma outra coisinha lá que eu não tenho coragem de mencionar.
    beijos

  2. Morri de rir, Fer! Tbm sempre fiz como vc, só levo umas bobeirinhas para o caso de uma fome fora de hora me pegar desprevinida. Farofa internacional é outra coisa! Fico a imaginar o terror que seria se os japoneses fizessem a mesma coisa com algumas comidinhas típicas aqui que são bem fedidas tipo conserva de nabo ou natto! kkkkkkkkk Ia ser demais!

  3. Fer, adorei o post… Consegui visualizar o povo todo comendo!!
    Tenho que lhe parabenizar pela força sobre-humana ao não aceitar as uvas… 😀

  4. Que delícia a refeicão da turma,hein? Mas olha Fe, nao sei ai, mas aqui se pode comprar bebidas alcólicas no duty free entao voce pode comprar algo.Acho que também vou adotar a idéia.Amei de paixao.Como nao pensei nisso antes? Obrigada por mais uma ótima leitura.

  5. Comida de avião é uma lástima mesmo, gostei das idéias, será que ainda dá para levar lanchinhos dentro dos aviões? Já está planejando o que vai fazer para quando vier?

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